Os
ministros saíram apressados da reunião, Gabriel estava furioso, a recuperação
do imperador atrapalhara muito seus planos e o discurso fora duro. Seu ódio era
notório, porém saiu apressadamente para realizar as ordens do imperador “por
enquanto preciso respeita-lo” pensava ele.
O
desembarque do Imperador Acaz em Ajuá foi singelo, uma pequena aeronave com
poucas pessoas e uma comitiva de três carros que saíram pela área de serviço do
aeroporto. O imperador se impressionava com as belezas daquela terra tão cheia
de vida. Durante o trajeto reinou o silêncio em que todos apenas observavam a
paisagem.
Por
algum motivo o soberano teve vontade de mudar seu trajeto, queria entender
aquele povo, conhecer aquelas terras, foi tomado pela vontade de um contato
mais profundo com os habitantes daquele lugar. Entendia que ninguém receberia
bem a comitiva até pela história conturbada, mas sabia de alguém que teria as
portas abertas para ele.
--
Sophia
não acreditou no que viu quando os três carros adentraram a propriedade e
pararam em frente ao sobrado. Estava sozinha com as crianças e não fazia ideia
de quem eram aqueles estranhos que ali chegaram. Tomé desceu e anunciou que o
imperador vinha de longa viagem e desejava ter algumas palavras com Robert. Sophia
explicou ao homem que Robert e Hamir estavam fora, mas que voltariam logo e
convidou a comitiva a almoçar com eles. Alguns empregados trabalhavam na
colheita e Sophia solicitou a um deles que fosse até Robert e avisasse que o
imperador estava no sobrado e que a comitiva almoçaria em sua casa.
Sophia
conversou muito com eles que por sua vez faziam muitas perguntas sobre o
planeta e as pessoas que ali viviam, principalmente quando perceberam o quanto
a moça sabia. Ela discursou empolgadamente sobre as pessoas, a diversidade, a
comida, a história, tudo que conseguiu lembrar sobre o que aprendera e sobre o
que a fez amar tanto aquele lugar. Quando Robert chegou, já não era mais
necessário, o imperador havia encontrado o que procurava.
O
soberano ficou impressionado com a cor e o sabor da comida e quis conhecer as
instalações onde Robert e Hamir trabalhavam. Após o passeio, sentados na
varanda com vista para o campo de Lísias, com Acaz que se levantava por detrás
das montanhas próxima ao chão aparentando estar maior, se estenderam algumas
horas de conversa em que o soberano se sentiu livre das obrigações que o faziam
visitar aquele lugar.
--
Chegando
ao palácio do governo Ajuá, o imperador se impressionou com
a pequenez e a simplicidade daquele local de tomada de decisões. Era
um sobrado não muito maior do que alguns da classe média em seu planeta natal.
Recebido com honras por vários parlamentares que só então ficaram cientes da presença
do ilustre convidado.
Josué,
governador Ajuá, apressou-se em recebê-lo as portas e como nunca houvera um
governante Acaz pisando aquelas terras, a imprensa estava alvoroçada em
entender o motivo da visita.
Na
entrevista coletiva, Josué enfatizou a importância do fato e que era um prazer
receber tão ilustre convidado. O imperador Acaz por sua vez citou a necessidade
de cooperação entre os povos e a vontade de ter maior interação visando
desenvolvimento em ambos os planetas. O soberano também explicou um pouco da
crise que assolara Acaz, sem utilizar palavras que deixassem claro o real
motivo dos últimos acontecimentos e citou que no atual estágio das economias, a
crise afetava tanto os ajuás quanto os acazes.
Recolhidos
a sala de governo, o imperador explicou sua preocupação com a crise e o
governador citou que seus produtores estavam preocupados com a queda das
exportações de alimentos. Ficou então combinado entre eles que o governo Acaz
pagaria o frete e a compra de 60% da produção Ajuá, que por sua vez concordaria
com a redução em 30% do valor de compra. Quanto às bases militares em solo
Ajuá, o governador deixou claro que precisaria de aprovação do congresso, pois
a medida poderia desagradar à população em véspera de ano de pleito. O
imperador não compreendeu bem e foi preciso a Josué explicar o funcionamento
político da nação. O imperador percebeu que algumas dificuldades poderiam advir
de um sistema comandado pelo povo para o que seria necessário realizar.
Em
Acaz, Gabriel soltara apenas alguns dos prisioneiros e preparou um relatório
falso citando que os corpos todos haviam sido devolvidos a suas famílias quando
na verdade os mesmos jaziam em cinzas nos fornos dos quartéis. As novas
unidades militares já estavam quase prontas e os cursos para formação de novos
recrutas tiveram redução pela metade em sua carga horária.
Nos
bastidores, Gabriel já convencera alguns ministros da incapacidade do imperador
de lidar com uma situação tão delicada e de que a viagem a Abiatar era exemplo
disto, onde o povo corria um sério risco do soberano tentar um acordo
diplomático e para consegui-lo revelar o motivo das ultimas medidas. Miguel
fazia o mesmo trabalho entre os generais, todas as conversas eram informais e
arquitetadas em parecer apenas a expressão de uma opinião pessoal, fazendo
assim, quem ouvia acreditar ser um desabafo e não um plano arquitetado para
alterar a ordem vigente.
Gabriel
apenas citava os acontecimentos, mas o que fazia já causava alvoroço, os
ministros debatiam em reuniões particulares sobre as possibilidades de uma
intervenção no governo e separadamente vários já haviam conversado com Gabriel
sobre um possível apoio dos militares a causa. Em reunião com nove dos treze
ministros, incluindo Gabriel, o assunto foi discutido abertamente e o ministro
da defesa garantiu o apoio do exército, decidiram também que o imperador
deveria ser mantido isolado em cárcere privado e que ninguém fora daquela sala
deveria saber que não era o soberano quem dava as ordens dali por diante. O
único problema do plano é que a guarda imperial era fiel ao governante, então
seria necessário que todos fossem afastados por ordem de decreto, mas como
poucos acreditariam e todos tinham acesso direto ao imperador, os que
resistissem ou ficassem sabendo precisariam ser mortos.
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