terça-feira, 22 de maio de 2012

O Livro

Meu primeiro projeto em grande escala, já que "O Baú de Davy Jones" e o "Contos de Arthur" não me exigiram tamanho compromisso.
A história se passa num mundo muito parecido com o nosso com uma lua habitada, e quando  uma catástrofe acontece se iniciá uma intensa briga pelo poder e pelos argumentos que levam uma das vertentes a ser a responsável pela salvação. Um governo enfraquecido, uma briga de egos e um grande cientista completam esta  história repleta de reviravoltas.
Aproveite a viagem e se lembre que este mundo existe, quando é criado dentro de ti enquanto tu o lê.

@gustavohkm

Rota de Colisão - Capitulo 1


Já passava das 21:30, horário habitual em que Robert punha as crianças para dormir, hoje elas estavam mais agitadas que o normal, também pudera, fazia tempo que ele não tirava um dia de folga para brincar com elas. Apesar da rotina, Robert não tinha do que reclamar, tinha deixado o agito de Acaz indo para aquela bela propriedade rural em Abiatar que lhe permitia um contato maior com as crianças e o prazer de coloca-las para dormir todos os dias. Era quase madrugada quando pode finalmente abraçar Sophia que o aguardava debruçada no parapeito da sacada que tinha vista para a lavoura, com as famosas montanhas do campo de Lísias ao fundo da paisagem.

- Você demorou.
- As crianças demoraram a pegar no sono.
- É tão diferente aqui, este ar faz muito bem.
- Realmente, não havia tantas estrelas em Acaz.

A noite era agradável, há muito desejava ter deixado o trabalho no “Instituto de analise e criação de novas tecnologias de Acaz” que lhe roubava todo tempo disponível. Era um importante cientista com um talento reconhecido muito além das fronteiras de Acaz, porém não gostava de criar sempre, se dedicava a outros robbies como o cultivo de plantas e o conserto de automóveis. A oportunidade de trabalhar na terra foi fator decisivo em sua decisão de vender tudo que tinha e mudar-se para a tranquila cidade de Tabaréu. As terras ali eram baratas e a propriedade com várias plantações custou metade do preço da casa simples em Uranak capital do império Acaz. Usavam a mesma moeda desde que pela primeira vez o povo de Acaz por ali havia atracado. Não demorou muito a perceberem que tinham mais a ganhar aliados que disputando aquelas terras.
O povo de Abiatar tinha tecnologia muito inferior, mas sabia muito bem defender sua soberania e a diplomacia foi questão de pura necessidade, por sua vez, Acaz tinha escassez de produtos essenciais que eram produzidos em abundancia neste novo mundo. A tecnologia mudou muito a vida dos habitantes de Abiatar, mas o preço era alto e uma terra riquíssima e essencialmente rural passou a ter problemas para alimentar seus habitantes. Levou tempo até que as negociações solucionassem os muitos problemas que existiam, mas após três séculos as relações eram muito estreitas e ambos os povos estavam interligados entre si.
Robert podia ver dali à silhueta de Acaz, todas aquelas cidades tão cheias de gente e fumaça faziam-na ter luz própria à noite e debruçado sobre aquele parapeito imaginava que ha poucas semanas estava do outro lado observando uma terra tão bela que escondia suas belezas a quem a observava a noite. Imerso em seus pensamentos demorou a perceber que uma estrela crescia a sua frente, ele pode vê-la se aproximar e rasgar os céus a uma velocidade impressionante, o chão tremeu e alguns pedaços de gesso que decorava o ambiente vieram ao chão. Era um objeto enorme, bem maior que Acaz, as crianças corriam desesperadas e Sophia foi atendê-las. Robert sabia que estavam ilesos, sabia que haviam escapado por muito pouco, mas ainda não havia entendido tudo o que tinha para entender.
Enquanto fazia as crianças dormirem, Sophia percebeu Robert falando rápido e tenso ao telefone, ele procurou ficar na varanda para que ela não escutasse. Quando ela finalmente saiu escutou um Robert ríspido e agitado:
- Como, como não previmos isto? Equipamentos tão modernos tantos telescópios, para que? Para que ninguém perceba um objeto deste tamanho passando tão perto? Quero todas as informações que puderem coletar e amanhã chego ai.
Ele se virou e viu que ela escutava, não soube ao certo há quanto tempo ela estava ali.
- Robert, o que aconteceu?
- Ainda não sei, vamos ter que investigar.
- Pode acontecer de novo?
- Sempre estamos suscetíveis a isto, mas o mais importante é saber se algo foi afetado.
- Como assim?
- Passou perto demais, pode ter causado algum efeito. Pego o primeiro voo para Acaz amanhã mesmo.
- Mas você disse que não trabalharia mais com isto, disse que ficaríamos aqui.
- Sim, mas neste caso, eu sou necessário.

--
Não pensou em voltar aquele lugar tão cedo, aquele não era seu mundo apesar de ter nascido nele. O aeroporto lembrava as viagens de criança e a despedida dos amigos. Havia um carro oficial a sua espera como em todas as suas viagens de trabalho, trabalho que ele não queria mais. Hamir já estava no laboratório, era um astrônomo e amigo de longa data, um jovem brilhante, que assim como ele doava todo seu tempo às pesquisas e ao IACNTA. Se alguém podia dizer a Robert tudo que ele precisava saber este alguém era Hamir. Foram dois dias de análise de todos os dados e Robert permanecia atento a tudo. Quando Hamir se ausentou por algumas horas Robert sabia que ele havia chego a alguma conclusão. O jovem convocou uma reunião de urgência com o Imperador e seus ministros além dos principais cientistas da IACNTA. O clima era tenso, o cientista não gostava de falar em público, mas ninguém conseguiria explicar aquilo, então, diante daquela plateia formada pelos homens mais importantes de sua época o rapaz começou seu discurso:

- Como todos sabem um objeto do espaço passou a poucos quilômetros de Abiatar. Não sentimos os efeitos e tremores em Acaz, apesar de termos visto o objeto, porque felizmente fomos protegidos pela orbita de Abiatar. O asteroide passou a 245.417 km de Abiatar e tinha um diâmetro de 863 km aproximadamente. Como todos aqui nesta sala sabem, Acaz orbita em torno de Abiatar a 420.677 km de distância.
O imperador o interrompeu:
- Tudo isto são dados técnicos que não nos interessam, poupe-nos disto, o que queremos saber é se o evento causou ou não algum efeito sobre o nosso planeta.
- Não.
- Então não temos porque prolongar esta reunião.
- Temos sim, esta é uma discussão que ainda teremos por mais três anos e meio.
- Explique-se.
- Acaz não foi afetada, mas o objeto alterou a orbita de Abiatar e sua nova rota é esta.

O imperador empalideceu quando viu o gráfico preparado por Hamir. Robert acompanhava os trabalhos, mas não tinha visto quando aquilo fora preparado. As discussões tomaram conta da sala, perplexos, desesperados, tensos, um misto entre acreditar que aquilo era real ou acreditar que Hamir havia se enganado.
- Temos quanto tempo?
- Não temos tempo imperador, os planetas vão se aproximar gradualmente até colidirem, podemos tentar algo dentro dos próximos três anos e meio e após isto a proximidade será grande demais para qualquer ação. Fato é que se não fizermos nada ambos os planetas deixarão de existir entre um a oito meses após o prazo limite.
- Quais as nossas opções?
- Não temos tecnologia ainda que possa nos salvar!
- Então crie, terão o suporte que precisarem.
- Não é tão simples.
- Com todo respeito Imperador, acredito que o Sr Hamir esteja um pouco equivocado quanto a nossa tecnologia. - Interrompeu o ministro da defesa.
- Prossiga ministro.
- Temos bombas capazes de explodir um dos planetas.
De imediato o silêncio tomou conta da sala, o imperador emudeceu e o ministro o observava receoso esperando resposta. Ninguém se atreveria a falar antes do imperador.
- E o que faríamos com as pessoas?
- Podemos evacuar o planeta se o Sr decidir salvá-los, porém devo alertá-lo que nosso planeta já tem um grande inchaço populacional e que apesar de nossos avanços tecnológicos não temos como produzir comida o suficiente.
- Qual a sua sugestão ministro?
- Podemos tomar Abiatar. O planeta é muito maior e menos populoso, poderíamos utilizar nossas armas mais modernas e a invasão seria rápida ainda a tempo de transferir nosso povo e nossas indústrias, sei que temos uma convivência pacífica, mas nossas opções agora se limitam a destruí-los ou invadi-los, caso contrário nos tornaríamos refugiados nas terras deles e nosso império deixaria de existir.
Robert Sabia que tinha de ser cauteloso com as palavras, mas o ministro da defesa estava sendo extremamente frio em seu discurso:
- Imperador. Não acredito que seja necessária a invasão. O povo daquele planeta é civilizado e negociações nos permitiriam delimitar nossas terras e as deles lá, tendo em vista que a tecnologia de destruição é nossa. Uma guerra poderia se alastrar por anos e ultrapassar nosso prazo limite, além disto, podemos estudar maneiras de reverter esta alteração na órbita. É de lá que vem a nossa comida, se a guerra se alastrar por só um pouco mais de tempo que o calculado, muitos morrerão de fome. Com diplomacia, a indústria teria mais tempo para se instalar lá e as pessoas para criar a infraestrutura necessária.
As palavras de Robert enfureceram o ministro:
- Imperador eu discordo, se eles souberem do que esta acontecendo vão se preparar para a guerra e vão endurecer as negociações. Se o Sr deseja manter a soberania do nosso império não podemos permitir que eles saibam o que realmente esta acontecendo.
- Mas eles não teriam como destruir nosso planeta sem nós Gabriel.
Robert respondeu com ódio olhando diretamente nos olhos daquele ministro.
- Já transferimos muita tecnologia para eles, ninguém pode garantir que não, até porque muitos cientistas como o próprio Robert aqui na sala já passaram temporadas por lá e sabe-se lá o que não criaram. Precisamos ser enérgicos e discretos, além disto, Sr. Robert, eu sou ministro da defesa e tenho meus privilégios, não me faça esquecer o bem que o Sr já nos fez.
- Entendo seu ponto de vista ministro e também entendo o ponto de vista de Robert. - O imperador interrompeu com ares de apaziguador - Vocês tem uma semana para me dizer exatamente o que precisam, eu verei nossas opções junto a meus conselheiros pessoais dando o meu veredito. O plano de cada um de vocês em uma semana.

Rota de Colisão - Capitulo 2


- Não vai funcionar, é dinheiro jogado no lixo.
- Eu sei Hamir, mas precisamos de mais tempo, já se passaram seis dias e eu preciso apresentar algum projeto que nos permita evitar o genocídio que seria esta guerra.
- Gabriel vai destruir você.
- Só se ele souber.
- Robert, isto é loucura e você esta pedindo muito dinheiro.
- Se eu pedisse pouco pensariam que não vai dar certo e mesmo sendo um projeto falso nos dará o tempo necessário a construção do verdadeiro projeto. Além disto, teremos os recursos necessários quando surgir alguma ideia de verdade para criação de algo que seja viável.
- Eu entendo que queira salvar aquelas pessoas, mas acho que devíamos pensar melhor nisto, se o imperador descobrir estaremos mortos.
- Não, ele precisa de nós e sabe disto, levaria tempo demais até formar gente com nossa experiência.
- Espero que você esteja certo, mas não sou estúpido, você tem um mês pra ter uma ideia, se não terá que dizer ao imperador que seu projeto não deu certo.
- Não direi, porque isto seria permitir que Gabriel tivesse seu ataque.
- E você acha sinceramente que Gabriel está tão errado?
- Ele sempre adorou uma guerra, ouvia seu pai falando da conquista do norte e da unificação dos países de Acaz num só império.
- Como assim?
- Ele é neto de Karabu o maior general da história Acaz, o grande responsável pela unificação deste planeta em um único império. Dizem que só não tomou Abiatar porque adoeceu no cerco ao rancho do general Lísias e viu sua tropa ser destroçada em ações impensáveis de seus soldados sem um líder. A família nunca recuperou o corpo e eles permanecem ansiando vingar sua honra contra o único que derrotou o maior general da história do império Acaz.
- Então você acha que Gabriel tem razões pessoais pra acreditar na conquista de Abiatar como única solução.
- É mais do que isto, ele precisa provar pra si mesmo que é melhor general que o avô, que não será derrubado da mesma maneira, a vida toda ele esperou por uma guerra para ser brilhante, ele foi preparado de berço pra isto e quando chegou à vida adulta encontrou um mundo de paz. O desejo dele é o de provar para si mesmo que é capaz, que tudo que ele sempre quis ser não é apenas um desejo e sim uma realidade.
- A difícil tarefa de ser filho de um gigante, no caso dele neto.
- O pai dele era muito rígido, se matou quando ele tinha 14 anos, cansado de treinar as tropas do império e de vê-las servirem apenas para guardar o quartel. Tentou por várias vezes influenciar o imperador a acabar com a paz entre os mundos, achava que o legado de seu pai Karabu merecia ser respeitado e as conquistas tinham que continuar. Cansado de esperar, acusou o Imperador de ingratidão, de não respeitar a grandeza que seu pai tinha permitido que ele tivesse, então convenceu seus soldados que deveriam tomar o trono, mas foi descoberto. O imperador teve misericórdia em nome de Karabu e mesmo com todas as provas o acusou de suspeita de conspiração e permitiu que ele vivesse exilado em Abiatar. Ele preferiu a morte e foi o que ele fez quando chegou em casa naquele dia para pegar seus pertences, deu um tiro na própria cabeça na frente de Gabriel, mas não sem antes obrigar o garoto a prometer que vingaria a ele e a seu avô. Por compaixão o imperador permitiu que os bens do pai passassem ao filho e ordenou que o garoto tivesse a melhor educação que o império pudesse dar, esperava que Gabriel fosse para ele o amigo que Karabu fora, o imperador faleceu aos 92 anos e foi sucedido por seu filho que aos 16 anos não tinha a mesma força e inteligência do pai. Gabriel ganhou muita influência nestes anos, se tornou amigo pessoal do novo imperador principalmente por sua idade próxima e sua inteligência sagaz. Eu trabalhei na IACNTA durante 20 anos, eu conheci o pai dele, eu o vi crescer e se tornar ministro da justiça e conheci as opiniões que ele guarda para si. Ele quer Abiatar, quer a cabeça da família de Lísias, quer fazer com que seus corpos nunca sejam encontrados e não vai perder sua melhor oportunidade em anos de criar uma guerra contra eles.
- Então nossa luta é em vão?
- Talvez, receio que mesmo que encontremos uma solução ele possa usar os fatos para voltar o exercito contra o imperador e fazer com que acreditem que o garoto não tem a mesma capacidade do pai. Em termos de sobrevivência, se o imperador não goza de pleno entendimento necessário as ações essenciais ao povo é dever do exército garantir que estes atos sejam realizados.
- Meu Deus, você esta certo.
- Por isto precisamos de tempo. Enquanto eu converso com você, Gabriel certamente conversa com o imperador e sem dúvidas também influencia o exército a agir caso seja necessário.
- Ele não pode ter pensado num plano tão rápido.
- Ele já pensou neste plano ha muito tempo, só que agora ele tem a carta que precisava para coloca-lo em prática.
- E o que vamos fazer?
- Vamos jogar xadrez.
--
O palácio estava silencioso, o imperador não falava com ninguém desde a reunião, havia assinado alguns atos e petições, mas não saíra de seus aposentos. Ouviram-se passos atravessando o amplo salão do hall, o barulho dos sapatos no chão de granito era típico de um cavalheiro importante à corte.
- O imperador não esta para visitas hoje. - Disse a secretária.
- A mim com certeza ela irá receber, diga-lhe que não lhe incomodarei com negócios oficiais, apenas vim ver um amigo. - Disse o rapaz sorrindo.
A moça informou ao governante e o mesmo concordou em permitir a entrada do ministro.
- A que devo a honra desta visita?
- Achei que estivesse precisando de alguém para conversar, não te vi no congresso.
- Aquelas reuniões são um pouco chatas, ainda mais agora que tenho tanta coisa mais importante para pensar.
- Soube que o senador de Nefilis trouxe um recado do governador querendo te homenagear no dia 20.
- Não sei pra que?
- Hora, é melhor que ficar aqui enfurnado e além do mais, os avanços econômicos daquela região são fruto do seu trabalho incansável. Tens sido uma referencia em administração de finanças.
- Pois é, mas não é mérito meu, tenho sido muito bem assessorado.
- Claro que sim, mas você escolheu os assessores.
- Não, meu pai escolheu. Faz oito anos que ele morreu e eu não troquei nenhum ministro, só o da defesa que morreu há três anos. Às vezes vejo a sombra dele em cada pedaço deste palácio, ele governou durante 70 anos e não há ninguém que possa apontar uma falha dele. Todos me olhando esperando que eu seja melhor que ele e não me sinto preparado para enfrentar o que esta por vir. Se ele estivesse aqui saberia o que fazer e a decisão dele seria respeitada, já eu, estou em dúvida até sobre a decisão lógica a tomar e sei que quando escolher muitos não irão concordar.
- Claro que irão. Você é o imperador.
- Ser o imperador vai muito além de ser filho de um e ter herdado o trono dele, é preciso o respeito do povo e neste ponto a boa fama do meu pai me atrapalha muito. Ele acertou tanto que todos esperam que eu erre.
- Mas ele nunca enfrentou uma situação como esta.
- Talvez não com este risco em caso de erro, mas com certeza já passou situações bem mais obscuras e teve sanidade para escolher o que fazer. As escolhas de tomar as terras do norte cujas guerras civis matavam milhões, ou de tomar o império Diocleciano que estava para conseguir a tecnologia de viagem espacial e ameaçar a paz com as três repúblicas de Abiatar foram escolhas difíceis, mas ele não teve dúvidas, fez e sabia que o povo estaria com ele por tudo que antes havia feito. Mas agora, ele já não esta mais aqui, o povo já não tem uma referencia que inspire confiança e eu não consigo ter a fé e a certeza que ele sempre teve a cada decisão que tomou.
- Mas você tem o coração dele e o povo de certa maneira o vê em você. Tenho certeza que saberá tomar a decisão mais sabia a tempo de solucionar os problemas deste povo.
- É, mas a ultima coisa que quero é travar uma guerra com um povo que meu pai amava tanto. Lembro que ele sempre convidava os governantes deles para conversas e acordos de cooperação e enquanto eles tratavam de negócios eu brincava com os filhos deles que hoje são senadores e generais. Ele dizia que eram povos muito mais desenvolvidos do que nós apesar da nossa tecnologia. Meu pai governava com muita sabedoria, acho que sentiria um desgosto grande em ter que escolher quem sobreviveria.
- É, mas sei que ele faria o que é necessário.
- Sim Gabriel, por isto espero que Robert traga boas noticias amanhã.
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Robert chegou ao palácio as 08h00min da manhã, queria apresentar logo sua ideia antes da chegada de Gabriel. Não chegou a parar na recepção, ouviu da secretária que o imperador estava a sua espera. Ele trazia em suas mãos apenas uma folha de papel com alguns esboços, passou 4 horas explicando ao imperador sobre como poderia criar uma máquina que utilizaria a energia dos ventos solares para reestabelecer a orbita normal dos planetas, o custo era alto, mas a recompensa em vidas seria incalculável. O imperador observava tudo quieto e fazia algumas anotações em seu caderno. Ao final pediu a Robert o esboço e estendeu a mão para cumprimenta-lo, quando ele ia se retirando o soberano disse:
- Robert, feche a porta por favor.
- Sim.
Robert fechou a porta e se voltou para ele.
- Conheceu meu pai?
- Bom, conversávamos.
- Sim, mas acima do imperador, conhecia bem meu pai?
- Conversávamos muito, seu pai investia muito em pesquisas, adorava ciências, foi ele quem me descobriu na universidade e me convidou para fazer parte da IACNTA.
- E o que acha que ele faria?
- Como?
- Se estivesse vivo? Que decisão ele tomaria?
- A situação exige análise, mas uma certeza eu tenho, ele já teria avisado aos governantes de Abiatar.
- Acredita que Gabriel esteja certo?
- Acredito que a ideia de destruir um dos planetas seja uma opção desesperada quando nada mais funcionar, ainda assim uma guerra contra as três repúblicas seria destruir tudo que seu pai lutou tanto tempo para construir.
- E o que seria?
- A paz.
- Obrigado Robert. Vai ficar no planeta?
- Preciso retornar a minha família, mas mantenho contato e caso o Sr queira seguir o meu plano eu me mudo novamente para poder ficar mais próximo das pesquisas.
- E está disposto a fazer com que sua família enfrente mais uma mudança destas?
- Não, não farei isto com eles, virei somente eu. Eles precisam criar raízes.
- E se acontecer a guerra?
- Então terei que me juntar a eles.
--
Há tempos um carro oficial não adentrava um quartel militar, o vigia mal se lembrava do protocolo a ser seguido e logo pediu identificação do motorista.
- Por favor, cabo, informe ao comandante que Gabriel deseja vê-lo.
- Sim senhor, Gabriel de onde?
- Ministério da Defesa.
- Sim, ele estará esperando em seu gabinete.
O carro se movia devagar, Gabriel se lembrou de sua infância, era naquele quartel que seu pai ficava. Aquilo era a vida dele. Dava pra sentir o ar dos grandes eventos, das brincadeiras com os filhos dos outros comandantes, as broncas quando começou a crescer, as exigências de se tornar alguém mais firme, de ser o melhor, tudo acontecera ali, naquele enorme complexo militar. O carro parou em frente à entrada, aquela onde o garoto sabia que encontraria seu pai, nunca visitara aquele lugar por outro motivo. O motorista abriu a porta e como de costume ficou aguardando o ministro sair do veículo. Gabriel hesitou alguns instantes, se deu conta de que havia passado muito tempo quando o motorista olhou para dentro do carro. Desceu sentindo uma insegurança que não lhe era familiar, mas qualquer outro nunca mais pisaria naquele lugar. “É necessário” repetia em voz baixa a cada passo que dava, olhava para o teto, para as maçanetas, para onde fosse; só queria evitar ver mais aquele lugar e reviver um passado enterrado, seria mais fácil ter olhado para os pés, mas não permitiria que ninguém o visse de cabeça baixa, era assim que tinha aprendido, e era assim que seria dali por diante. Entrou diretamente ao gabinete onde o comandante geral do complexo já o aguardava.
- Comandante Lauro!
- Gabriel! A que devo a honra de ter em meu gabinete o ministro da defesa filho de um de meus melhores amigos?
- Acredite, a honra é minha em retornar a um lugar tão cheio de homens de presença dispostos sempre a fazer o que é necessário para manter a soberania de seu império.
- Aonde quer chegar?
- Interessante sua perspicácia. Comandante, vêm tempos turbulentos pela frente e você sabe que nosso governo não é mais o mesmo.
- Sim, o Imperador morreu, mas isto não quer dizer que as coisas vão ficar ruins.
- Claro, mas não é a troca de um homem que me refiro. Este império esta para passar por uma das maiores provações de sua história e não creio que o atual imperador tenha capacidade de tomar a decisão correta que salvará a todos nós de uma grande catástrofe.
- O que quer dizer?
- É informação confidencial, por hora só devo dizer que precisaremos entrar em guerra, mas não acredito que o imperador vá aventar esta possibilidade.
- E esta sugerindo que entremos em guerra por cima da autoridade do imperador?
- Não, estou sugerindo que tomemos o poder e façamos a guerra necessária a nossa salvação.
- Isto é loucura, o povo nunca vai apoiar.
- Quando o povo souber o que eu sei, agradecerá cada passo que dermos.
- E quando pretende fazer isto.
- Assim que tiver certeza da inaptidão do nosso imperador lhe passarei as instruções. Importante é que ninguém saiba de nada antes do tempo e que o povo não saiba que o imperador não governa mais antes de termos terminado a guerra.
- E que território vamos tomar?
- Abiatar.
- Que parte?
- Todo planeta, as três repúblicas. Aterrissaremos no campo de Lísias, que é vazio esta época do ano e tomaremos primeiramente a república Ajuá.
- Mas eles têm o exército mais bem treinado, são a república mais rica e com a tecnologia mais avançada da região.
- Sim, mas justamente por isto estão sempre de guarda baixa, não esperam que uma invasão comece por ali.
- Segundo passo é a república de Etê, eles acreditam tanto na diplomacia que não se preocuparam em formar um exército, são a sabedoria deste planeta tosco, quando os dominarmos acabaremos com a união característica dos povos de Abiatar e separados será bem mais fácil terminar a tomada de Ajuá e preparar para o ataque a maior e mais selvagem das três repúblicas.
- Sim, tem soldados famosos por não desistirem enquanto estiverem em pé, também é o exército mais numeroso e dizem que nunca este exército perdeu sequer uma batalha.
- Até agora comandante, até agora, nós temos a tecnologia.
- Não os subestime Gabriel, foram eles que derrotaram Karabu e seu exército quando se aproveitaram da doença do imperador e convenceram o congresso a lhes dar permissão de invadir Abiatar, se a guerra tivesse sido bem sucedida, o imperador teria ficado irritadíssimo quando acordou de seu estado.
- Mas eles não estavam sozinhos.
- Sim, o general Lísias e o pequeno exército de Ajuá estavam lá, mas jamais teriam feito nada sem o exército Jibaoçú, eles foram decisivos, eram numerosos como formigas, fortes como touros, determinados como leões e ágeis como pumas.
- Não acredito que terão esta sorte outra vez.
- Não foi sorte, não se sabe quantos são, nem como vivem, são muito afastados e só se relacionam com os Etê, ocupam mais da metade daquele planeta e nem os nativos ousam desafia-los.
- Eu diria que você tem medo.
- Droga, eu estive lá, eu sei do que estou falando. Respeite-os antes se deseja vencê-los. A guerra com os outros povos será fácil, mas não com eles, ninguém nunca os venceu e mesmo que nós o façamos, teremos um numero incalculável de baixas.
- Mas isto é uma boa notícia.
- E porque seria?
- Porque há gente demais para alimentar e infraestrutura demais a ser criada, há seu tempo lhe informo sobre isto. Mas preciso saber, na hora certa, posso contar com você?
- Seu avô foi o maior general que já vi, seu pai foi um grande homem e vejo em você o melhor dos dois. Sim, se for necessário o exército te seguirá desde que ninguém saiba que não são ordens do imperador.
- Ótimo, mas você esta enganado sobre algo. Não sou como meu pai, sei exatamente a quem digo cada coisa e se isto sair desta sala alguém vai morrer. E não serei eu como fez o meu pai.
- Compreendo.
- Agora se me da licença eu tenho compromissos a cumprir.
--

O palácio permanecia quieto, o imperador havia cancelado todos os compromissos daquele dia, Gabriel chegou as 15hs00min estava entrando na sala quando a secretária atendeu uma ligação que o deteve na porta.
- O imperador não atenderá ninguém hoje. Sim, sim, mas qual a emergência? Direi que deseja falar com ele senhor? A sim, 460212624, isto? Uma boa tarde para o senhor, assim que tiver uma resposta entro em contato.
Gabriel conhecia aquele número, mas não conseguia se lembrar de onde, a conversa lhe soara estranha e ele resolveu investigar. Aproximou-se da moça.
- Oh, o senhor não precisa se apresentar, ele esta a sua espera.
- Eu sei, a verdade é que eu não tinha ainda reparado a beleza deste abajur que a senhorita tem em sua mesa, sou colecionador de objetos antigos, é artesanal?
Ela discursava sobre a história do abajur olhando fixamente para ele enquanto Gabriel passava os olhos na mesa da moça procurando a anotação. Lauro, era o nome escrito em cima do telefone, ficou branco, “a quem mais ele disse? um velho como ele devia estar cansado de tantas revoluções e reveses! Ou seria ele a própria causa de tantos fracassos em sua família?”, os pensamentos não o deixaram perceber que a moça havia parado de falar e agora olhava para ele. Percebeu um olhar de raiva na garota, “ela deve ter percebido o que eu procurava”.
- Como ousa?
- O que?
- Um ministro se dando a uma imoralidade destas!
- Mas ...
- Não sou destas moças oferecidas nem uso decote para que o senhor olhe para meus seios, o senhor por favor, me respeite.
- Claro, desculpe, não tive a intenção de parecer grosseiro, é que uma moça como a senhorita há de convir que sua beleza seja irresistível a um homem solteiro como eu, mesmo a um ministro, peço perdão se meu olhar me traiu e me fez parecer desrespeitoso.
Disse isto olhando nos olhos da moça enquanto sua mão esquerda pegava o papel onde estava anotado o telefone e o nome de Lauro.
- Por favor, informe ao imperador que deixei no carro os papeis, que cabeça a minha, volto em 15 minutos, é só o tempo de busca-los.
- Tudo bem.
Ela percebeu um papel com gráfico em suas mãos, mas achou melhor não perguntar para não parecer intrometida.
Gabriel caminhava com passos rápidos e firmes, queimava de ódio por dentro, “o que fazer?”, lembrou-se que tinha um primo de extrema confiança no exército, que concordava com todas as opiniões dele e o tinha como um grande homem capaz de levar seu Imperador ao ápice.
- Miguel?
- Sim, quem?
- Gabriel!
- Oi primo, quanto tempo? E o trabalho no ministério? Soube que se tornou o braço direito do imperador.
- Sim, sim, Miguel. Não temos muito tempo, tenho uma missão confidencial para você. Mas antes preciso saber: Você confia em mim?
- Claro.
- Então será o novo comandante geral das forças armadas.
- Eu?
- Sim
- Mas e o Comandante Lauro?
- Será demitido. E você vai contar isto a ele.
- Como assim?
- Não temos tempo, tenho uma reunião agora com o imperador. Pegue uma arma e faça-o entrar na mala do seu carro agora e me encontre as 22 h na 73 em Ichvill.
- Mas ...
- Não questione, apenas faça. Ligue-me quando estiver fora do complexo militar com ele na mala e não o mate, eu terei este prazer.
- Tudo bem.
Gabriel desligou o telefone e se apressou a ter com o imperador. Apresentou todo o seu projeto exatamente como o tinha apresentado a Lauro. Era enfático em dizer que uma invasão era a única chance de manter a soberania. Em meio à explicação recebeu uma chamada que não atendeu e se desculpou com o imperador por ter esquecido o celular ligado. O soberano estava mais entretido no plano de Gabriel e perguntou:
- Por que acha que eles não negociarão conosco?
- São povos primitivos, tem governos atrasados e precisariam perder terras. Além de tudo tem o povo Jibaoçú, que nunca sequer conversou conosco.
- Acha que meu pai optaria pela guerra?
- Nesta situação sim, seu pai sempre fez o melhor pelo povo dele.
- E por que não podemos permitir que eles saibam o que esta acontecendo?
- Porque se souberem perceberão que precisamos das terras deles para sobreviver, organizarão seus exércitos como um só e nos observarão. Também há o risco dos Ajuás já terem desenvolvido tecnologia suficiente para nos destruir e utilizarem disto antes da evacuação do planeta, por aventarem a possibilidade de invadirmos eles. Negociações seriam impossíveis e arriscadas, primeiramente porque teríamos que dizer o porquê de queremos terras no planeta deles, segundo porque a nossa necessidade faria com que eles aumentassem  as exigências para ceder e terceiro pelo que já citei, porque podem simplesmente acabar conosco.
- Então não há uma saída pacífica para isto?
- Não
- Gabriel, você sabe que meu pai amava aquele povo. É muito difícil para mim, ter que iniciar uma guerra passando por cima de todo relacionamento que meu pai construiu durante tanto tempo.
- Seu pai os aturava, mas já quis conquista-los. Tenho aqui algumas notícias da época em que os invadimos e fomos derrotados pelo general Lísias. Ele os tinha como um povo sábio, mas sabia que teríamos muito a ganhar se figurássemos debaixo da bandeira de um mesmo império.
O jovem imperador estava chocado, nunca soube de tal guerra.
- Nunca tinha visto isto, obrigado pelo seu projeto. Enviarei juntamente com o de Robert aos meus conselheiros.
--

Robert pousava em Abiatar naquele instante, sabia que não era sábio flertar com os dois mundos, mas tinha esperança de que a guerra pudesse ser evitada. As crianças sempre corriam gritando a frente de Sophia quando o viam, era um alvoroço só.
- Tomem, trouxe para vocês.
Sophia sabia da importância de Robert na comunidade científica, porém não imaginava a magnitude do trabalho que havia sido realizado. Quando as crianças se acalmaram ele pode finalmente beijá-la.
- Que saudades amor.
- Como foi em Acaz?
- Bem pior do que imaginei.
- Quer conversar sobre isto?
- Não, preciso descansar, pensar um pouco e fazer amor com você.
- Robert! As crianças estão ouvindo.
- Não ouviram nada, estão entretidas demais no joguinho novo que eu trouxe para elas.
- Só por isto também vou dormir direto hoje.
- Você não resiste aos meus encantos.
- Vamos ver.
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A rua 73 em Ichvill era escura, um distrito industrial que aquela hora da noite já não via ninguém vagando em suas ruas. Um carro do exército estava parado havia 20 minutos quando a seu lado parou um esportivo com placa da capital.
- Miguel
- Gabriel
Os primos se abraçaram com tapas nas costas.
- Tire ele daí.
Miguel tirou o homem da mala e amarrou seus braços para trás, quando Gabriel lhe tirou a venda Lauro soube o que estava fazendo ali.
- Então, achou que eu não ia saber?
- Não sei do que você esta falando.
- A quem mais você contou?
- Eu não disse nada, eu juro.
- Não minta pra mim, merda, será que preciso mesmo atirar em você?
- Eu sou só um comandante idoso, eu não disse nada e mesmo que dissesse ninguém me levaria a sério.
- Ótimo, só que você esquece que eu trabalho diretamente com o imperador. A quem mais você contou?
Gabriel deu um tiro no joelho de Lauro. Lauro Gemia de dor.
- Tudo bem, pare, eu não contei a ninguém. Iria falar com o imperador, mas não consegui.
- Foi você que traiu meu pai?
- É um erro Gabriel, aquele povo vive pacificamente a mais de 4.000 anos, nós chegamos e tentamos invadi-los 15 vezes até perceber que era impossível e criar relações amigáveis, o imperador teve trabalho demais para consertar o erro de Karabu há 40 anos, foram épocas difíceis de escassez de comida, mas eles retornaram o contato conosco, nós perdemos a guerra, mas conseguimos retomar o diálogo e ...
- Foi você que traiu meu pai?
- Gabriel, me escute. É loucura, não temos como ganhar esta guerra, o imperador é boa pessoa e ...
Tomado pelo ódio Gabriel atirou no outro joelho de Lauro e bradou:
- Foi você que traiu meu pai? Eu posso te fazer buracos a noite toda!
Lauro gemia de dor.
- Seu pai era obsecado pela guerra, queria ser melhor que seu avo, teria sido um ótimo comandante e era uma boa pessoa, mas não conseguiu suportar a paz. O imperador lutou anos pela fraternidade nos dois mundos e quando vi seu pai ameaçar tanta luta e tanta história pelo anseio de uma guerra que só traria morte e desgraça preferi vê-lo morto a permitir que todo povo de Acaz sofresse.
Gabriel dava chutes em Lauro, queria que ele sofresse e gritava:
- Você matou meu pai desgraçado.
- Não o matei, apenas salvei o povo de Acaz e intercedi por ele junto ao imperador.
- Vocês não tem visão mesmo, ninguém entende o que é ser visionário e ter certeza de que mesmo com as perdas é a solução acertada. Mas uma hora os ratos são descobertos e alguém tem que tirá-los de circulação. Acabou pra você Lauro
- Sim, pode ter acabado para mim, sou um comandante velho que já venceu muitas batalhas e perdeu outras, mas levo no peito a vitória sobre o mais poderoso general que nossa história já existiu – Lauro tinha um sorriso sarcástico no rosto – Você achou que o imperador estava inconsciente quando seu avo convenceu o exército daquelas ordens falsas? Na verdade ele tinha uma legião de servidores fiéis, seu avo não adoeceu, foi sedado e eu passei as posições de cada unidade do exército Acaz ao general Lísias. Ou você achou que o imperador ia deixar que invadíssemos terras que não eram nossas? Que foi? Não tem mais balas nesta arma? Não quer fazer mais uns buracos não?
Com as mãos na cabeça Gabriel se virou com ódio fervendo em seu sangue, porém não percebeu quando o comandante sacou um pequeno revolver que guardava em seu calcanhar. Ele deu dois tiros na direção de Gabriel, um na coxa direita outro no ombro, era difícil mirar com as mãos amarradas para trás e com toda aquela dor. Gabriel caiu de joelhos e quando Lauro mirava sua cabeça o ministro ouviu dois tiros. O corpo do comandante caiu desfalecido, Miguel segurava uma arma ainda com fumaça saindo do cano, olhou para Gabriel com ar de desaprovação e disse:
- Acabou o show, vamos embora daqui.