- Não vai funcionar, é dinheiro jogado no lixo.
- Eu sei Hamir, mas precisamos de mais tempo, já se passaram
seis dias e eu preciso apresentar algum projeto que nos permita evitar o
genocídio que seria esta guerra.
- Gabriel vai destruir você.
- Só se ele souber.
- Robert, isto é loucura e você esta pedindo muito dinheiro.
- Se eu pedisse pouco pensariam que não vai dar certo e mesmo
sendo um projeto falso nos dará o tempo necessário a construção do verdadeiro
projeto. Além disto, teremos os recursos necessários quando surgir alguma ideia
de verdade para criação de algo que seja viável.
- Eu entendo que queira salvar aquelas pessoas, mas acho que
devíamos pensar melhor nisto, se o imperador descobrir estaremos mortos.
- Não, ele precisa de nós e sabe disto, levaria tempo demais
até formar gente com nossa experiência.
- Espero que você esteja certo, mas não sou estúpido, você
tem um mês pra ter uma ideia, se não terá que dizer ao imperador que seu
projeto não deu certo.
- Não direi, porque isto seria permitir que Gabriel tivesse
seu ataque.
- E você acha sinceramente que Gabriel está tão errado?
- Ele sempre adorou uma guerra, ouvia seu pai falando da
conquista do norte e da unificação dos países de Acaz num só império.
- Como assim?
- Ele é neto de Karabu o maior general da história Acaz, o
grande responsável pela unificação deste planeta em um único império. Dizem que
só não tomou Abiatar porque adoeceu no cerco ao rancho do general Lísias e viu
sua tropa ser destroçada em ações impensáveis de seus soldados sem um líder. A
família nunca recuperou o corpo e eles permanecem ansiando vingar sua honra
contra o único que derrotou o maior general da história do império Acaz.
- Então você acha que Gabriel tem razões pessoais pra
acreditar na conquista de Abiatar como única solução.
- É mais do que isto, ele precisa provar pra si mesmo que é
melhor general que o avô, que não será derrubado da mesma maneira, a vida toda
ele esperou por uma guerra para ser brilhante, ele foi preparado de berço pra
isto e quando chegou à vida adulta encontrou um mundo de paz. O desejo dele é o
de provar para si mesmo que é capaz, que tudo que ele sempre quis ser não é
apenas um desejo e sim uma realidade.
- A difícil tarefa de ser filho de um gigante, no caso dele
neto.
- O pai dele era muito rígido, se matou quando ele tinha 14
anos, cansado de treinar as tropas do império e de vê-las servirem apenas para
guardar o quartel. Tentou por várias vezes influenciar o imperador a acabar com
a paz entre os mundos, achava que o legado de seu pai Karabu merecia ser
respeitado e as conquistas tinham que continuar. Cansado de esperar, acusou o
Imperador de ingratidão, de não respeitar a grandeza que seu pai tinha
permitido que ele tivesse, então convenceu seus soldados que deveriam tomar o
trono, mas foi descoberto. O imperador teve misericórdia em nome de Karabu e
mesmo com todas as provas o acusou de suspeita de conspiração e permitiu que
ele vivesse exilado em Abiatar. Ele preferiu a morte e foi o que ele fez quando
chegou em casa naquele dia para pegar seus pertences, deu um tiro na própria
cabeça na frente de Gabriel, mas não sem antes obrigar o garoto a prometer que
vingaria a ele e a seu avô. Por compaixão o imperador permitiu que os bens do
pai passassem ao filho e ordenou que o garoto tivesse a melhor educação que o
império pudesse dar, esperava que Gabriel fosse para ele o amigo que Karabu
fora, o imperador faleceu aos 92 anos e foi sucedido por seu filho que aos 16
anos não tinha a mesma força e inteligência do pai. Gabriel ganhou muita
influência nestes anos, se tornou amigo pessoal do novo imperador
principalmente por sua idade próxima e sua inteligência sagaz. Eu trabalhei na
IACNTA durante 20 anos, eu conheci o pai dele, eu o vi crescer e se tornar
ministro da justiça e conheci as opiniões que ele guarda para si. Ele quer
Abiatar, quer a cabeça da família de Lísias, quer fazer com que seus corpos
nunca sejam encontrados e não vai perder sua melhor oportunidade em anos de
criar uma guerra contra eles.
- Então nossa luta é em vão?
- Talvez, receio que mesmo que encontremos uma solução ele
possa usar os fatos para voltar o exercito contra o imperador e fazer com que
acreditem que o garoto não tem a mesma capacidade do pai. Em termos de
sobrevivência, se o imperador não goza de pleno entendimento necessário as
ações essenciais ao povo é dever do exército garantir que estes atos sejam
realizados.
- Meu Deus, você esta certo.
- Por isto precisamos de tempo. Enquanto eu converso com
você, Gabriel certamente conversa com o imperador e sem dúvidas também
influencia o exército a agir caso seja necessário.
- Ele não pode ter pensado num plano tão rápido.
- Ele já pensou neste plano ha muito tempo, só que agora ele
tem a carta que precisava para coloca-lo em prática.
- E o que vamos fazer?
- Vamos jogar xadrez.
--
O palácio estava silencioso, o imperador não falava com
ninguém desde a reunião, havia assinado alguns atos e petições, mas não saíra
de seus aposentos. Ouviram-se passos atravessando o amplo salão do hall, o
barulho dos sapatos no chão de granito era típico de um cavalheiro importante à
corte.
- O imperador não esta para visitas hoje. - Disse a
secretária.
- A mim com certeza ela irá receber, diga-lhe que não lhe
incomodarei com negócios oficiais, apenas vim ver um amigo. - Disse o rapaz
sorrindo.
A moça informou ao governante e o mesmo concordou em permitir
a entrada do ministro.
- A que devo a honra desta visita?
- Achei que estivesse precisando de alguém para conversar,
não te vi no congresso.
- Aquelas reuniões são um pouco chatas, ainda mais agora que
tenho tanta coisa mais importante para pensar.
- Soube que o senador de Nefilis trouxe um recado do
governador querendo te homenagear no dia 20.
- Não sei pra que?
- Hora, é melhor que ficar aqui enfurnado e além do mais, os
avanços econômicos daquela região são fruto do seu trabalho incansável. Tens
sido uma referencia em administração de finanças.
- Pois é, mas não é mérito meu, tenho sido muito bem
assessorado.
- Claro que sim, mas você escolheu os assessores.
- Não, meu pai escolheu. Faz oito anos que ele morreu e eu
não troquei nenhum ministro, só o da defesa que morreu há três anos. Às vezes
vejo a sombra dele em cada pedaço deste palácio, ele governou durante 70 anos e
não há ninguém que possa apontar uma falha dele. Todos me olhando esperando que
eu seja melhor que ele e não me sinto preparado para enfrentar o que esta por
vir. Se ele estivesse aqui saberia o que fazer e a decisão dele seria
respeitada, já eu, estou em dúvida até sobre a decisão lógica a tomar e sei que
quando escolher muitos não irão concordar.
- Claro que irão. Você é o imperador.
- Ser o imperador vai muito além de ser filho de um e ter
herdado o trono dele, é preciso o respeito do povo e neste ponto a boa fama do
meu pai me atrapalha muito. Ele acertou tanto que todos esperam que eu erre.
- Mas ele nunca enfrentou uma situação como esta.
- Talvez não com este risco em caso de erro, mas com certeza
já passou situações bem mais obscuras e teve sanidade para escolher o que
fazer. As escolhas de tomar as terras do norte cujas guerras civis matavam
milhões, ou de tomar o império Diocleciano que estava para conseguir a
tecnologia de viagem espacial e ameaçar a paz com as três repúblicas de Abiatar
foram escolhas difíceis, mas ele não teve dúvidas, fez e sabia que o povo
estaria com ele por tudo que antes havia feito. Mas agora, ele já não esta mais
aqui, o povo já não tem uma referencia que inspire confiança e eu não consigo
ter a fé e a certeza que ele sempre teve a cada decisão que tomou.
- Mas você tem o coração dele e o povo de certa maneira o vê
em você. Tenho certeza que saberá tomar a decisão mais sabia a tempo de
solucionar os problemas deste povo.
- É, mas a ultima coisa que quero é travar uma guerra com um
povo que meu pai amava tanto. Lembro que ele sempre convidava os governantes
deles para conversas e acordos de cooperação e enquanto eles tratavam de
negócios eu brincava com os filhos deles que hoje são senadores e generais. Ele
dizia que eram povos muito mais desenvolvidos do que nós apesar da nossa
tecnologia. Meu pai governava com muita sabedoria, acho que sentiria um
desgosto grande em ter que escolher quem sobreviveria.
- É, mas sei que ele faria o que é necessário.
- Sim Gabriel, por isto espero que Robert traga boas noticias
amanhã.
--
Robert chegou ao palácio as 08h00min da manhã, queria
apresentar logo sua ideia antes da chegada de Gabriel. Não chegou a parar na
recepção, ouviu da secretária que o imperador estava a sua espera. Ele trazia
em suas mãos apenas uma folha de papel com alguns esboços, passou 4 horas
explicando ao imperador sobre como poderia criar uma máquina que utilizaria a
energia dos ventos solares para reestabelecer a orbita normal dos planetas, o
custo era alto, mas a recompensa em vidas seria incalculável. O imperador
observava tudo quieto e fazia algumas anotações em seu caderno. Ao final pediu
a Robert o esboço e estendeu a mão para cumprimenta-lo, quando ele ia se
retirando o soberano disse:
- Robert, feche a porta por favor.
- Sim.
Robert fechou a porta e se voltou para ele.
- Conheceu meu pai?
- Bom, conversávamos.
- Sim, mas acima do imperador, conhecia bem meu pai?
- Conversávamos muito, seu pai investia muito em pesquisas,
adorava ciências, foi ele quem me descobriu na universidade e me convidou para
fazer parte da IACNTA.
- E o que acha que ele faria?
- Como?
- Se estivesse vivo? Que decisão ele tomaria?
- A situação exige análise, mas uma certeza eu tenho, ele já
teria avisado aos governantes de Abiatar.
- Acredita que Gabriel esteja certo?
- Acredito que a ideia de destruir um dos planetas seja uma
opção desesperada quando nada mais funcionar, ainda assim uma guerra contra as
três repúblicas seria destruir tudo que seu pai lutou tanto tempo para
construir.
- E o que seria?
- A paz.
- Obrigado Robert. Vai ficar no planeta?
- Preciso retornar a minha família, mas mantenho contato e
caso o Sr queira seguir o meu plano eu me mudo novamente para poder ficar mais
próximo das pesquisas.
- E está disposto a fazer com que sua família enfrente mais
uma mudança destas?
- Não, não farei isto com eles, virei somente eu. Eles
precisam criar raízes.
- E se acontecer a guerra?
- Então terei que me juntar a eles.
--
Há tempos um carro oficial não adentrava um quartel militar,
o vigia mal se lembrava do protocolo a ser seguido e logo pediu identificação
do motorista.
- Por favor, cabo, informe ao comandante que Gabriel deseja
vê-lo.
- Sim senhor, Gabriel de onde?
- Ministério da Defesa.
- Sim, ele estará esperando em seu gabinete.
O carro se movia devagar, Gabriel se lembrou de sua infância,
era naquele quartel que seu pai ficava. Aquilo era a vida dele. Dava pra sentir
o ar dos grandes eventos, das brincadeiras com os filhos dos outros
comandantes, as broncas quando começou a crescer, as exigências de se tornar
alguém mais firme, de ser o melhor, tudo acontecera ali, naquele enorme
complexo militar. O carro parou em frente à entrada, aquela onde o garoto sabia
que encontraria seu pai, nunca visitara aquele lugar por outro motivo. O motorista
abriu a porta e como de costume ficou aguardando o ministro sair do veículo.
Gabriel hesitou alguns instantes, se deu conta de que havia passado muito tempo
quando o motorista olhou para dentro do carro. Desceu sentindo uma insegurança
que não lhe era familiar, mas qualquer outro nunca mais pisaria naquele lugar. “É
necessário” repetia em voz baixa a cada passo que dava, olhava para o teto, para
as maçanetas, para onde fosse; só queria evitar ver mais aquele lugar e reviver
um passado enterrado, seria mais fácil ter olhado para os pés, mas não
permitiria que ninguém o visse de cabeça baixa, era assim que tinha aprendido,
e era assim que seria dali por diante. Entrou diretamente ao gabinete onde o
comandante geral do complexo já o aguardava.
- Comandante Lauro!
- Gabriel! A que devo a honra de ter em meu gabinete o
ministro da defesa filho de um de meus melhores amigos?
- Acredite, a honra é minha em retornar a um lugar tão cheio
de homens de presença dispostos sempre a fazer o que é necessário para manter a
soberania de seu império.
- Aonde quer chegar?
- Interessante sua perspicácia. Comandante, vêm tempos
turbulentos pela frente e você sabe que nosso governo não é mais o mesmo.
- Sim, o Imperador morreu, mas isto não quer dizer que as
coisas vão ficar ruins.
- Claro, mas não é a troca de um homem que me refiro. Este
império esta para passar por uma das maiores provações de sua história e não
creio que o atual imperador tenha capacidade de tomar a decisão correta que
salvará a todos nós de uma grande catástrofe.
- O que quer dizer?
- É informação confidencial, por hora só devo dizer que
precisaremos entrar em guerra, mas não acredito que o imperador vá aventar esta
possibilidade.
- E esta sugerindo que entremos em guerra por cima da
autoridade do imperador?
- Não, estou sugerindo que tomemos o poder e façamos a guerra
necessária a nossa salvação.
- Isto é loucura, o povo nunca vai apoiar.
- Quando o povo souber o que eu sei, agradecerá cada passo
que dermos.
- E quando pretende fazer isto.
- Assim que tiver certeza da inaptidão do nosso imperador lhe
passarei as instruções. Importante é que ninguém saiba de nada antes do tempo e
que o povo não saiba que o imperador não governa mais antes de termos terminado
a guerra.
- E que território vamos tomar?
- Abiatar.
- Que parte?
- Todo planeta, as três repúblicas. Aterrissaremos no campo
de Lísias, que é vazio esta época do ano e tomaremos primeiramente a república Ajuá.
- Mas eles têm o exército mais bem treinado, são a
república mais rica e com a tecnologia mais avançada da região.
- Sim, mas justamente por isto estão sempre de guarda
baixa, não esperam que uma invasão comece por ali.
- Segundo passo é a república de Etê, eles acreditam tanto
na diplomacia que não se preocuparam em formar um exército, são a sabedoria
deste planeta tosco, quando os dominarmos acabaremos com a união característica
dos povos de Abiatar e separados será bem mais fácil terminar a tomada de Ajuá
e preparar para o ataque a maior e mais selvagem das três repúblicas.
- Sim, tem soldados famosos por não desistirem enquanto
estiverem em pé, também é o exército mais numeroso e dizem que nunca este
exército perdeu sequer uma batalha.
- Até agora comandante, até agora, nós temos a tecnologia.
- Não os subestime Gabriel, foram eles que derrotaram
Karabu e seu exército quando se aproveitaram da doença do imperador e
convenceram o congresso a lhes dar permissão de invadir Abiatar, se a guerra
tivesse sido bem sucedida, o imperador teria ficado irritadíssimo quando
acordou de seu estado.
- Mas eles não estavam sozinhos.
- Sim, o general Lísias e o pequeno exército de Ajuá
estavam lá, mas jamais teriam feito nada sem o exército Jibaoçú, eles foram
decisivos, eram numerosos como formigas, fortes como touros, determinados como
leões e ágeis como pumas.
- Não acredito que terão esta sorte outra vez.
- Não foi sorte, não se sabe quantos são, nem como vivem,
são muito afastados e só se relacionam com os Etê, ocupam mais da metade
daquele planeta e nem os nativos ousam desafia-los.
- Eu diria que você tem medo.
- Droga, eu estive lá, eu sei do que estou falando.
Respeite-os antes se deseja vencê-los. A guerra com os outros povos será fácil,
mas não com eles, ninguém nunca os venceu e mesmo que nós o façamos, teremos um
numero incalculável de baixas.
- Mas isto é uma boa notícia.
- E porque seria?
- Porque há gente demais para alimentar e infraestrutura
demais a ser criada, há seu tempo lhe informo sobre isto. Mas preciso saber, na
hora certa, posso contar com você?
- Seu avô foi o maior general que já vi, seu pai foi um
grande homem e vejo em você o melhor dos dois. Sim, se for necessário o exército
te seguirá desde que ninguém saiba que não são ordens do imperador.
- Ótimo, mas você esta enganado sobre algo. Não sou como
meu pai, sei exatamente a quem digo cada coisa e se isto sair desta sala alguém
vai morrer. E não serei eu como fez o meu pai.
- Compreendo.
- Agora se me da licença eu tenho compromissos a cumprir.
--
O palácio permanecia quieto, o imperador havia cancelado
todos os compromissos daquele dia, Gabriel chegou as 15hs00min estava entrando
na sala quando a secretária atendeu uma ligação que o deteve na porta.
- O imperador não atenderá ninguém hoje. Sim, sim, mas qual
a emergência? Direi que deseja falar com ele senhor? A sim, 460212624, isto? Uma
boa tarde para o senhor, assim que tiver uma resposta entro em contato.
Gabriel conhecia aquele número, mas não conseguia se
lembrar de onde, a conversa lhe soara estranha e ele resolveu investigar.
Aproximou-se da moça.
- Oh, o senhor não precisa se apresentar, ele esta a sua
espera.
- Eu sei, a verdade é que eu não tinha ainda reparado a
beleza deste abajur que a senhorita tem em sua mesa, sou colecionador de
objetos antigos, é artesanal?
Ela discursava sobre a história do abajur olhando fixamente
para ele enquanto Gabriel passava os olhos na mesa da moça procurando a
anotação. Lauro, era o nome escrito em cima do telefone, ficou branco, “a quem
mais ele disse? um velho como ele devia estar cansado de tantas revoluções e
reveses! Ou seria ele a própria causa de tantos fracassos em sua família?”, os
pensamentos não o deixaram perceber que a moça havia parado de falar e agora
olhava para ele. Percebeu um olhar de raiva na garota, “ela deve ter percebido
o que eu procurava”.
- Como ousa?
- O que?
- Um ministro se dando a uma imoralidade destas!
- Mas ...
- Não sou destas moças oferecidas nem uso decote para que o
senhor olhe para meus seios, o senhor por favor, me respeite.
- Claro, desculpe, não tive a intenção de parecer
grosseiro, é que uma moça como a senhorita há de convir que sua beleza seja
irresistível a um homem solteiro como eu, mesmo a um ministro, peço perdão se
meu olhar me traiu e me fez parecer desrespeitoso.
Disse isto olhando nos olhos da moça enquanto sua mão esquerda
pegava o papel onde estava anotado o telefone e o nome de Lauro.
- Por favor, informe ao imperador que deixei no carro os
papeis, que cabeça a minha, volto em 15 minutos, é só o tempo de busca-los.
- Tudo bem.
Ela percebeu um papel com gráfico em suas mãos, mas achou
melhor não perguntar para não parecer intrometida.
Gabriel caminhava com passos rápidos e firmes, queimava de
ódio por dentro, “o que fazer?”, lembrou-se que tinha um primo de extrema
confiança no exército, que concordava com todas as opiniões dele e o tinha como
um grande homem capaz de levar seu Imperador ao ápice.
- Miguel?
- Sim, quem?
- Gabriel!
- Oi primo, quanto tempo? E o trabalho no ministério? Soube
que se tornou o braço direito do imperador.
- Sim, sim, Miguel. Não temos muito tempo, tenho uma missão
confidencial para você. Mas antes preciso saber: Você confia em mim?
- Claro.
- Então será o novo comandante geral das forças armadas.
- Eu?
- Sim
- Mas e o Comandante Lauro?
- Será demitido. E você vai contar isto a ele.
- Como assim?
- Não temos tempo, tenho uma reunião agora com o imperador. Pegue
uma arma e faça-o entrar na mala do seu carro agora e me encontre as 22 h na 73
em Ichvill.
- Mas ...
- Não questione, apenas faça. Ligue-me quando estiver fora do
complexo militar com ele na mala e não o mate, eu terei este prazer.
- Tudo bem.
Gabriel desligou o telefone e se apressou a ter com o
imperador. Apresentou todo o seu projeto exatamente como o tinha apresentado a
Lauro. Era enfático em dizer que uma invasão era a única chance de manter a
soberania. Em meio à explicação recebeu uma chamada que não atendeu e se
desculpou com o imperador por ter esquecido o celular ligado. O soberano estava
mais entretido no plano de Gabriel e perguntou:
- Por que acha que eles não negociarão conosco?
- São povos primitivos, tem governos atrasados e precisariam
perder terras. Além de tudo tem o povo Jibaoçú, que nunca sequer conversou conosco.
- Acha que meu pai optaria pela guerra?
- Nesta situação sim, seu pai sempre fez o melhor pelo povo
dele.
- E por que não podemos permitir que eles saibam o que esta acontecendo?
- Porque se souberem perceberão que precisamos das terras
deles para sobreviver, organizarão seus exércitos como um só e nos observarão.
Também há o risco dos Ajuás já terem desenvolvido tecnologia suficiente para nos
destruir e utilizarem disto antes da evacuação do planeta, por aventarem a
possibilidade de invadirmos eles. Negociações seriam impossíveis e arriscadas,
primeiramente porque teríamos que dizer o porquê de queremos terras no planeta
deles, segundo porque a nossa necessidade faria com que eles aumentassem
as exigências para ceder e terceiro pelo que já citei, porque podem
simplesmente acabar conosco.
- Então não há uma saída pacífica para isto?
- Não
- Gabriel, você sabe que meu pai amava aquele povo. É muito
difícil para mim, ter que iniciar uma guerra passando por cima de todo
relacionamento que meu pai construiu durante tanto tempo.
- Seu pai os aturava, mas já quis conquista-los. Tenho aqui
algumas notícias da época em que os invadimos e fomos derrotados pelo general
Lísias. Ele os tinha como um povo sábio, mas sabia que teríamos muito a ganhar
se figurássemos debaixo da bandeira de um mesmo império.
O jovem imperador estava chocado, nunca soube de tal
guerra.
- Nunca tinha visto isto, obrigado pelo seu projeto. Enviarei
juntamente com o de Robert aos meus conselheiros.
--
Robert pousava em Abiatar naquele instante, sabia que não
era sábio flertar com os dois mundos, mas tinha esperança de que a guerra
pudesse ser evitada. As crianças sempre corriam gritando a frente de Sophia
quando o viam, era um alvoroço só.
- Tomem, trouxe para vocês.
Sophia sabia da importância de Robert na comunidade
científica, porém não imaginava a magnitude do trabalho que havia sido
realizado. Quando as crianças se acalmaram ele pode finalmente beijá-la.
- Que saudades amor.
- Como foi em Acaz?
- Bem pior do que imaginei.
- Quer conversar sobre isto?
- Não, preciso descansar, pensar um pouco e fazer amor com
você.
- Robert! As crianças estão ouvindo.
- Não ouviram nada, estão entretidas demais no joguinho
novo que eu trouxe para elas.
- Só por isto também vou dormir direto hoje.
- Você não resiste aos meus encantos.
- Vamos ver.
--
A rua 73 em Ichvill era escura, um distrito industrial que
aquela hora da noite já não via ninguém vagando em suas ruas. Um carro do
exército estava parado havia 20 minutos quando a seu lado parou um esportivo
com placa da capital.
- Miguel
- Gabriel
Os primos se abraçaram com tapas nas costas.
- Tire ele daí.
Miguel tirou o homem da mala e amarrou seus braços para trás,
quando Gabriel lhe tirou a venda Lauro soube o que estava fazendo ali.
- Então, achou que eu não ia saber?
- Não sei do que você esta falando.
- A quem mais você contou?
- Eu não disse nada, eu juro.
- Não minta pra mim, merda, será que preciso mesmo atirar em
você?
- Eu sou só um comandante idoso, eu não disse nada e mesmo
que dissesse ninguém me levaria a sério.
- Ótimo, só que você esquece que eu trabalho diretamente com
o imperador. A quem mais você contou?
Gabriel deu um tiro no joelho de Lauro. Lauro Gemia de dor.
- Tudo bem, pare, eu não contei a ninguém. Iria falar com o
imperador, mas não consegui.
- Foi você que traiu meu pai?
- É um erro Gabriel, aquele povo vive pacificamente a mais de
4.000 anos, nós chegamos e tentamos invadi-los 15 vezes até perceber que era
impossível e criar relações amigáveis, o imperador teve trabalho demais para
consertar o erro de Karabu há 40 anos, foram épocas difíceis de escassez de
comida, mas eles retornaram o contato conosco, nós perdemos a guerra, mas
conseguimos retomar o diálogo e ...
- Foi você que traiu meu pai?
- Gabriel, me escute. É loucura, não temos como ganhar esta
guerra, o imperador é boa pessoa e ...
Tomado pelo ódio Gabriel atirou no outro joelho de Lauro e
bradou:
- Foi você que traiu meu pai? Eu posso te fazer buracos a
noite toda!
Lauro gemia de dor.
- Seu pai era obsecado pela guerra, queria ser melhor que seu
avo, teria sido um ótimo comandante e era uma boa pessoa, mas não conseguiu
suportar a paz. O imperador lutou anos pela fraternidade nos dois mundos e
quando vi seu pai ameaçar tanta luta e tanta história pelo anseio de uma guerra
que só traria morte e desgraça preferi vê-lo morto a permitir que todo povo de
Acaz sofresse.
Gabriel dava chutes em Lauro, queria que ele sofresse e
gritava:
- Você matou meu pai desgraçado.
- Não o matei, apenas salvei o povo de Acaz e intercedi por
ele junto ao imperador.
- Vocês não tem visão mesmo, ninguém entende o que é ser
visionário e ter certeza de que mesmo com as perdas é a solução acertada. Mas
uma hora os ratos são descobertos e alguém tem que tirá-los de circulação.
Acabou pra você Lauro
- Sim, pode ter acabado para mim, sou um comandante velho que
já venceu muitas batalhas e perdeu outras, mas levo no peito a vitória sobre o
mais poderoso general que nossa história já existiu – Lauro tinha um sorriso
sarcástico no rosto – Você achou que o imperador estava inconsciente quando seu
avo convenceu o exército daquelas ordens falsas? Na verdade ele tinha uma
legião de servidores fiéis, seu avo não adoeceu, foi sedado e eu passei as
posições de cada unidade do exército Acaz ao general Lísias. Ou você achou que
o imperador ia deixar que invadíssemos terras que não eram nossas? Que foi? Não
tem mais balas nesta arma? Não quer fazer mais uns buracos não?
Com as mãos na cabeça Gabriel se virou com ódio fervendo em
seu sangue, porém não percebeu quando o comandante sacou um pequeno revolver
que guardava em seu calcanhar. Ele deu dois tiros na direção de Gabriel, um na
coxa direita outro no ombro, era difícil mirar com as mãos amarradas para trás
e com toda aquela dor. Gabriel caiu de joelhos e quando Lauro mirava sua cabeça
o ministro ouviu dois tiros. O corpo do comandante caiu desfalecido, Miguel
segurava uma arma ainda com fumaça saindo do cano, olhou para Gabriel com ar de
desaprovação e disse:
- Acabou o show, vamos embora daqui.