Sentado no gabinete do imperador, Gabriel sentia-se
invencível, era como se finalmente tivesse conseguido o que seu pai e seu avô
tentaram por tanto tempo. Os outros ministros questionaram seus métodos e o
fato de Gabriel ter citado que medidas tão controvérsias partiam de ordens do
imperador, ele apenas disse que fez o que era necessário e que o povo teria
menos questionamentos se acreditasse que o imperador estava ciente e aceitava
as medidas. A equipe médica evitava dar notícias e ninguém sabia se o imperador
sobreviveria a mais uma cirurgia que precisou ser realizada em caráter
emergencial. Gabriel determinou o isolamento do hospital ao qual somente ele, a
guarda imperial e a equipe médica teriam acesso. Acelerou as medidas de
recrutamento e de ampliação dos quartéis e solicitou uma produção em massa de
armas de última geração e aviões que só existiam em projetos do IACNTA. O clima
nas cidades era o de um quartel general e todos especulavam sobre o porquê de
tamanho movimento militar por parte do governo, fato é que os principais
analistas começavam a adivinhar os objetivos de tamanha ofensiva.
Robert e Hamir passaram os últimos três meses
produzindo incessantemente vários projetos que Robert desenhara e Hamir não
entendia.
Os frutos em Abiatar estavam cada vez mais
suculentos e as árvores mais cheias de folhas, as cidades litorâneas estavam
perdendo espaço para o mar que a cada dia ganhava um espaço a mais de terra. Nunca
a pesca fora tão abundante e apesar do aumento nos furacões e de um aparente
desequilíbrio do tempo onde alguns locais enfrentavam mais chuvas que o
normal e outros sofriam com secas inéditas, porém havia muito o que comemorar
com a colheita recorde. A euforia não durou muito, pois a crise econômica sem
precedentes em Acaz fez com que as exportações caíssem muito e elevou os preços
dos produtos de tecnologia que advinham de lá a patamares inimagináveis.
Após três meses o imperador finalmente deixava
o hospital sob forte esquema de segurança e sem nenhum comunicado oficial para
evitar aglomerações. A comitiva seguiu diretamente ao palácio e mesmo
debilitado o soberano convocou uma reunião com todos os seus ministros para ter
a exata noção do que acontecia em seu império.
Muito havia mudado e os números que viu de nada
lhe agradaram. Os presos por Gabriel não haviam ainda sido interrogados, o
dinheiro sumia dos bolsos da população impulsionado pela quebra de inúmeras
indústrias em virtude das medidas dos últimos tempos. Já começava a faltar
comida aos mais pobres, pois os poucos importadores que se arriscaram a
compra-la tinham custos bem maiores e cobravam preços exorbitantes que eram
repassados pelos armazéns e mercados aos consumidores. Faltava emprego, pois a
indústria, principal empregadora em Acaz, tinha parado de produzir para não
saturar o mercado causando uma onda de demissões em todos os setores.
- Esta é uma situação a que não podíamos
chegar. Por mais que os tempos sejam adversos e que eu tenha sido obrigado a
tomar medidas contrarias a minha índole, vocês não poderiam ter sido tão
irresponsáveis deixando as coisas chegarem a este ponto. Quando Acbar faleceu
me senti perdido e em meio a meus devaneios, naquele hospital até achei que
talvez a morte resolvesse muitos de meus problemas. Agora vejo o que minha
ausência causou. Todos observaram apenas o problema geral e esqueceram que o
povo tem necessidades. Um governo não é feito para fazer o melhor por nós ou
satisfazer às nossas convicções pessoais e sim para fazer o melhor pelo povo a
que ele serve. O governo só existe porque existe o povo e somos apenas
servidores deles e não ao contrário. Não devemos manter um império simplesmente
porque seu tamanho e sua imponência satisfazem ao nosso ego, ele deve existir
porque é vontade do povo que nele vive e porque sua imponência e força
proporciona uma vida melhor aos seus habitantes. O povo esta com fome e com
medo do governo e é nossa obrigação corrigir este mal estar que nossa
incompetência causou. Tomé, prepare minha viagem a Ajuá, tenho muitos assuntos
a tratar por lá. Gabriel, quero todos os prisioneiros daquele seu ato
repugnante que não tenham cometido crimes soltos, também quero os corpos que
você confiscou devolvidos às famílias, exume se for necessário, você tem dois
dias. E aproveite que temos quartéis em quase todas as cidades e prepare
grandes armazéns. Quero 2.000 cargueiros prontos para partir assim que eu der a
ordem. Apenas Tomé e a comitiva de praxe irão comigo, pois preciso de alguém
para traduzir a língua daquele país. Claudio, como ministro da economia, espero
sinceramente que tenha planos para reaquecer o mercado. Quanto aos outros;
preciso de dados sobre a atual situação, temos que evitar que coisas piores
aconteçam.
- Imperador, acha mesmo que devemos soltar os
prisioneiros, eles podem retomar as revoltas e tornar as cidades novamente em
campos de batalhas.
- Não ouse questionar minha autoridade Gabriel,
apenas solte-os. É seu trabalho garantir a segurança do império sem prender
pessoas inocentes. Espero que eu tenha sido claro.
- Sim senhor.
- Então o que estão esperando? Ainda estou
vendo todos aqui.
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