“E se ela
disse a verdade? E se Acaz estiver sob domínio Ajuá? O que eu faço? Não posso
me render, isto seria dar a eles mais confiança, uma demonstração de fraqueza
de um império. Não o farei, lutaremos. Mas como?”
Os
pensamentos de Gabriel foram interrompidos pelo grito de uma multidão, gritavam
como um exército que estava prestes a invadir um lugar. De repente o silêncio e
em meio aos soldados passaram correndo alguns dos homens que sumiram no dia anterior,
tinham um olhar mórbido e convidavam seus amigos a sair da tenda ver o que
tinha do lado de fora. Gabriel e Miguel insistiam aos soldados que era um
truque porem muitos cederam e saíram da tenda, em meio à confusão uma menina
loira, que aparentava ter uns sete anos puxou a perna de Gabriel para obter sua
atenção, quando ele olhou para ela, ela o chamou e disse em seu ouvido
sussurrando:
- Tio,
acho melhor vocês se renderem. Isto ainda vai ficar pior.
Gabriel
deu um salto de pavor e a menina continuou andando e sumiu em meio aos
soldados. Então os gritos voltaram junto ao barulho de tambores e cada vez que
olhava havia menos soldados dentro da tenda. Com o olhar distante o general
sacou a sua arma e apontou para a própria cabeça, estava prestes a disparar
quando Miguel tomou a arma da mão dele.
- Você
enlouqueceu?
- Não há o
que fazer Miguel, não temos como vencer.
- Isto é
mais que obvio, não sei porque ainda não nos invadiram.
- Eles
querem nossa rendição.
- Hora, se
é isto então porque não nos rendemos?
- Jamais
Miguel, não perdemos ainda, as naves devem chegar amanhã e ainda estamos vivos,
só me rendo morto.
- A
decisão não é mais sua.
- Aonde
vai?
Miguel foi
andando na direção da entrada da tenda enquanto Gabriel sentado no chão chorava
como uma criança, não gozava mais de pleno entendimento, estava possuído pelo
medo e pelo orgulho que o acompanhava sempre. Os tambores permaneceram durante
toda a noite e só pararam quando o sol começou a nascer.
- Senhor,
Miguel desapareceu, assim como vários soldados. Fiz a contagem dos que ainda
sobraram e contei duzentos e oitenta e seis. As armas sumiram todas.
- Agora me
diga. Como espera que eu ganhe uma guerra se tenho soldados incompetentes o
suficiente para perderem suas armas?
- Com todo
respeito senhor, isto não é mais uma guerra, é um massacre e não temos chances
de vencer.
- Você é
um covarde.
- Tenho
coragem quando é necessário, mas neste caso não há coragem que mude os fatos.
- Levante
o acampamento, se nos apressarmos chegaremos antes de escurecer a Lísias.
- Lísias é
uma cidade, somos um exército invasor e não temos armas.
- Lísias
esta vazia, sobrevoamos ela várias vezes.
- A esta
altura eu duvido que esteja. Provavelmente eles retiraram a população de lá
somente para que acreditássemos nisto.
- Então o
que sugere?
- Uns três
quilômetros a oeste eu vi uma fazenda, possivelmente haja suprimentos por lá e
não acredito que ofereçam resistência pela quantidade de homens que temos.
- Pois
bem, vamos para lá então.
A conversa
foi interrompida pela morena da noite anterior.
- Olá
Gabriel. Pensou na minha proposta?
- Deixe de
ser ridícula, nunca.
- Me deu
um fora? Partiu meu coração.
- Você tem
sorte de eu não te matar.
- Você nem
vale a pena mesmo, é tão patético que só esta vivo porque Miguel te salvou. Por
falar nisto, ele veio se render.
- Ele
sempre foi um fraco.
- Todo seu
exército pode se render, isto só vai parar quando você admitir que perdeu.
- Por que
eu sou tão importante?
- Você não
Gabriel. Lauro era, Acbar era, aquele jovem manifestante era o futuro da sua
nação. Aquelas quatrocentas mil pessoas que você matou por não concordarem com
você poderiam ser os maiores intelectuais de Acaz. O imperador confiava em você
e o que você fez? Você manipulou os ministros para ter o poder para si. Mas não
era o suficiente, você matou com suas mãos aqueles que discordaram do seu ato
covarde. Você que chorou não poder enterrar seu avô, fez com que várias
famílias não pudessem enterrar seus entes queridos. Você achava que seus crimes
ficariam impunes? Nós sabemos de tudo e podemos ser generosos. Se você se
render, todo este sofrimento pode acabar.
- Eu não
irei me render, eu tenho trezentos soldados prontos a lutar até a morte por
mim.
- Nós nos
rendemos – Interrompeu o soldado que falava com Gabriel – eu e o restante do
exército.
- Ops,
Gabriel. Parece que agora é só você, não é?
- Vou
esperar a chegada das naves com um exército digno.
- Já disse
que seu planeta esta sob nosso controle. Mas se prefere assim durma, à noite eu
volto ver se você mudou de ideia.
A moça
fechou a mão direita, espremendo-a em frente a Gabriel e ele apagou na hora.
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