Gabriel
não podia acreditar em tamanha insolência, Miguel, percebendo o ódio nos olhos
do soberano e sua consequente paralisia mediante a situação, foi imediatamente
conferir as naves movidas a urânio ordenando que desligassem todos os reatores.
- Temos
trezentos blindados, setecentos esqueletos e cento e cinquenta caças ainda
funcionando, coincidentemente estavam todos desligados até agora.
- Ótimo,
mas agora estamos em desvantagem, devemos esperar a noite, nossos equipamentos
enxergam melhor a noite que os olhos deles.
- Temos
mais um problema.
- O que
houve?
-
Trezentos soldados já desapareceram.
- Como?
- A
maioria sumiu em rondas no entorno do acampamento, ninguém que andou sozinho
voltou.
- Chega de
rondas, ordene aos soldados que fiquem todos juntos. Temos algum radar de
infravermelho?
- Tínhamos
nove desligados no porão da nave principal.
-
Certifique-se de que funcionam e coloque-os a vasculhar o entorno do
acampamento. General, não quero mais notícias ruins. Faça as coisas direito
desta vez.
--
Ninguém
mais suportava o mau humor de Gabriel, mas não era hora para rebelião, estavam
em uma situação delicadíssima onde o inimigo havia virado o jogo sem disparar uma
única bala.
A tarde
foi de reparos nos equipamentos e chamava atenção algumas placas e chips que
pareciam ter pegado fogo por baixo das carenagens das poderosas máquinas de
Acaz. Nenhum rádio funcionava o que os deixou incomunicáveis, sem notícias da
capital. As portas das naves que guardavam os caças tiveram seu mecanismo
danificado assim como alguns caças impedindo a retirada e utilização dos que
ainda funcionavam. O tempo passava e agora a prioridade era preparar-se para
passar a noite ali, pois um ataque seria praticamente impossível naquelas
condições e os ajuás poderiam estar preparando alguma coisa. Os radares
infravermelhos a toda hora detectavam movimento, mas os soldados ainda não
tinham tido contato visual com ninguém deste mundo estranho.
A noite
começava a baixar, o silêncio e a calma que tomaram conta daquele lugar
impressionavam os soldados, quanto mais escuro ficava mais percebiam que
estavam indefesos e os poucos faróis que ainda funcionavam foram concentrados
para que as principais tendas tivessem boa visibilidade. Vários soldados
relatavam que escutaram um estranho e assustador canto vindo das margens do
acampamento e mesmo entre os menos supersticiosos o comentário entre os
soldados era de que os deuses não tinham aprovado a invasão e por isto enviaram
os antepassados de Abiatar para evitar a guerra. Algumas reações beiravam a
histeria e ninguém sabia dizer com certeza como tantos equipamentos haviam
simplesmente deixado de funcionar.
Gabriel e
Miguel convocaram uma reunião na tenda central do acampamento, tentavam acalmar
os ânimos, mas o que encontraram foram soldados apavorados ansiosos por uma
explicação aos fenômenos que estavam acontecendo. O ministro pediu calma, pois
um exército tem que enfrentar suas batalhas de cabeça erguida e unido, de outro
modo a derrota é iminente. Ele explicou os planos que tinha preparado para
aquela situação e pediu a colaboração de todos para que a vitória fosse
possível.
Neste
momento as luzes se apagaram, um forte vento sacudiu a lona do acampamento e a
canção em língua estranha que os soldados ouviam a beira do acampamento passou
a ser escutada ali dentro, em pontos mais iluminados era possível ver a
silhueta de pessoas de mãos dadas fazendo uma ciranda ao redor da tenda, a
musica arrepiava a espinha de todos e alguns soldados correram apavorados,
Gabriel pedia calma em vão, os soldados atiravam contra as sombras, mas a
ciranda não parava e quem saia da tenda não retornava. Tentou dar a ordem de que
permanecessem ali, juntos, mas cada vez mais os soldados estavam amedrontados
de maneira que até Miguel desapareceu escondido em baixo de uma mesa.
Oitocentos mil soldados desembarcaram em Abiatar, naquela tenda havia agora
apenas quinze mil, completamente apavorados junto ao seu centro.
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