terça-feira, 22 de maio de 2012

Rota de Colisão - Capitulo 23


A chegada ao presídio foi tumultuada, populares atiravam objetos no carro em que estava Gabriel, repórteres querendo a melhor foto, para a polícia foi difícil manter o cordão de isolamento que permitia a entrada dos carros no complexo penitenciário. Gabriel foi despido e lavado com um jato de água fria, em seguida ganhou roupas de presidiário e foi colocado em uma cela. Sentou na cama dura que era apenas um pedaço de metal com um fino colchonete em cima e se lembrou do luxo que tinha há poucos dias atrás. As luzes se apagaram e da cela ao lado veio uma voz:
- É novo aqui?
- Sou
- E o que fez?
- Tentei salvar a nação.
- Hora, então você é um herói.
- Nem todos pensam assim.
- É difícil mesmo este mundo onde heróis são confundidos com bandidos.
- Achei que eu era o primeiro prisioneiro aqui.
- Você nunca será o primeiro em nada.
- O que disse?
- Para ser o primeiro é preciso merecer esta posição e você Gabriel merece menos do que isto. Você merece a morte, mas a mim ela parece generosa demais para você, então não consigo imaginar uma maneira de te fazer pagar por todos os seus crimes.
- Do que você está falando?
- Eu tinha você como um amigo, eu tinha você como um conselheiro, eu confiei cegamente em você. Eu não imaginava que você tinha matado Lauro, então pedi a alguém que era mais importante para mim que meu próprio pai, que fosse investigar a morte dele para você e que te entregasse um relatório com os culpados. Ele não fez o que eu pedi. Ao invés de te entregar o relatório ele mandou a mim e foi confrontar a você, pela descoberta que ele fez.
- E o que ele descobriu?
- Não faça isto, não finja que não sabe. A morte de Acbar teve uma testemunha ocular que você esqueceu dentro do armário. Infelizmente eu só vi o dossiê sobre a morte de Lauro muito tempo depois e só quando eu já estava aqui é que apareceu a testemunha da morte de Acbar. Você vai continuar negando?
- Eu precisava fazer o que fiz, você nunca teria coragem de invadir este planeta.
- Eu nunca precisei invadir este planeta. Para minha sorte, Hamir plantou escutas em todo palácio, na sua casa e na casa de vários ministros aproveitando nossa distração durante meu discurso de dissolução do congresso. Então Robert interceptou minha comitiva e me avisou do seu golpe antes que eu embarcasse para meu cárcere privado. Então ficou fácil, enviei um sósia, você deve se lembrar que eu tenho vários, e ele fez para mim o papel de imperador deposto. Enquanto isto, eu, Robert e Josué, com ajuda dos Etê, que não tem um governante e sim sacerdotes, inclusive você conheceu a sacerdotisa que é o equivalente a um imperador para eles, negociávamos um território para os acazes que em virtude da sua subversão foi muito mais generoso, porque jamais derrotaríamos o meu exército sem a ajuda de Robert. Bom, na verdade os jibaoçús derrotariam, mas matariam a todos o que não seria bom para ninguém.
- Mas como vocês sumiram com tantas aeronaves?
- Em primeiro lugar, eu tenho vários acessos, seria fácil para mim, mas infelizmente os jibaoçús não sabem pilotar, então precisei da ajuda da minha guarda imperial. Para passar despercebidos usamos um truque de guerra dos jibaoçús, uma planta que quando é espremida libera um gás que faz uma pessoa desmaiar na mesma hora. Obvio que Robert concentrou este gás poderoso em mini granadas e foi só fazer as pessoas dormirem e realizar o nosso trabalho. Deu trabalho arrastar todo mundo que trabalhava no IACNTA e deu mais trabalho ainda tirar aquele enorme servidor de lá antes de ativar o sistema de autoincineração. Tínhamos um prazo bem curto. Depois fomos ao quartel central e também retiramos o servidor antes de por fogo no prédio. Ficou fácil com as naves que você construiu para mim, fazer o mesmo em outros quartéis. A ironia é que em nenhum momento você usou os satélites para vasculhar a área e descobrir que estávamos bem em cima de você, parados a 15 quilômetros de altura. Se você tivesse se preocupado em observar Ajuá, teria notado que a Pyripta ainda estava lá, que na verdade te contaram uma história falsa. Aproveitamos para transportar obras de arte e livros e da mesma maneira também trouxemos 70% da população para o novo território antes mesmo de você começar sua desastrada invasão. Escolhemos a dedo os quartéis, Robert sabia a localização de cada Hangar de aeronaves e meus informantes me avisaram que tínhamos deixado uma testemunha, por isto voltei para busca-la. Eu ainda não sabia que você tinha matado Acbar, se eu soubesse você teria morrido ali.
- Perdão.
- Você acha que é digno de perdão? Acha que é digno de clemência? Amanhã você terá o maior julgamento da história desta nação. Teremos cento e cinquenta mil pessoas assistindo, você será julgado num estádio.
- Você não pode fazer isto comigo.
- Posso, porque diferente de você, eu sou imperador por direito. Você deve ter gostado da forma jibaoçú de fazer guerra. Eles vencem um exército pelo medo e matam os soldados um a um sem que ninguém perceba. A diferença é que não mataram ninguém e você ficaria perplexo em saber quantos fizeram questão de mudar de lado quando foram capturados somente para assistir sua cara de pavor. Você conquistou muitos inimigos e como pode ver perdeu o único amigo que tinha.
- Em nome dos velhos tempos, eu lhe peço clemência.
- Você não teve clemência com Lauro, não teve clemência com Acbar, não teve clemência com o meu povo quando atirou contra eles, acho muita pretensão da sua parte me pedir isto agora.
- Nós sempre fomos amigos, eu só fiz o que achava certo.
- Também farei o que acho certo.  As coisas mudam sabe? Acaz é prova disso. Não preciso mais me esconder, agora sou eu quem manda em Acaz. Você sabe por quê? Porque você não teve fibra, você não teve força para fazer o que era necessário. O povo precisava de um verdadeiro líder e estou mostrando a eles o que é ter um governo de verdade. Bom, deve estar se perguntando o que vim fazer aqui. Vim lhe dizer que você perdeu, vim olhar o seu rosto quando perceber que eu te venci. Você é patético, acho até que já sabia desde o começo, quase cinco meses preparando este plano, agindo debaixo do seu nariz, você só esta vivo porque eu tive clemência.
- Era você?
- Não, eu tinha uma escuta. A propósito, o soldado que você mandou para matar o meu sósia e Ana era meu aliado. Você achou que tinha o controle, mas no fim eu estava no comando o tempo todo. Eles estão bem cuidados agora. Adeus. E antes que eu me esqueça, venha até aqui.
Gabriel se levantou e antes que pudesse notar o imperador lhe deu um soco na cara.
- Quando você sentir esta dor amanhã, lembre-se de que é por Acbar.

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