terça-feira, 22 de maio de 2012

Rota de Colisão - Capitulo 3


O sol começava a nascer quando as naves chegaram, centenas delas, o pouso quase simultâneo por sobre as plantações no campo de Lísias e o rápido desembarque dos soldados não deixava dúvidas da intenção dos visitantes. Homens montados em esqueletos de metal abriam caminho queimando tudo que encontravam com seus lança chamas, seguidos pela infantaria com suas metralhadoras que atiravam em tudo que se mexia, os caças apressados metralhavam as construções e bombardeavam as grandes cidades, eram milhares, as pessoas corriam pelas ruas ainda vestindo pijamas, os soldados invadiam as casas, torturavam e abusavam dos moradores com requintes de crueldade. Após alguns instantes Ajuá estava no chão, era só silêncio, fumaça, uma pilha de corpos e um acampamento militar.
Quando os soldados arrombaram a porta do sobrado, Robert desceu correndo para tentar impedir o pior, foi dominado e ouvia ao fundo a voz de Sophia chamando por ele:
- Robert, Robert, Robert, acorde, esta tudo bem, calma!
Robert abriu os olhos ainda assustado, nunca tivera um pesadelo tão real. Beijou Sophia na testa e disse:
- Eu amo você!
- Também te amo Robert, é que te ouvi gritar o meu nome e me assustei. Estava sonhando com o que?
- Nem queira saber, acho que terei muito trabalho a fazer.
- Você mal chegou.
- Sim, mas logo terei que partir.
- Você me disse que quando nos mudássemos seria tudo diferente.
- Eu sei, mas as coisas são diferentes agora.
- O que? O que é diferente?
- Algo muito sério aconteceu e receio que ninguém além de mim poderá salvar nossos mundos.
- Você sempre acha que é o homem de aço.
- Não, mas preciso tentar, por vocês.
- Agora você esta me assustando.
- Não tenha medo, eu sempre estarei aqui por você, volte a dormir.
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O imperador foi acordado com uma mensagem urgente, Gabriel estava hospitalizado e o comandante Lauro estava morto. Nunca se viu tanto movimento naquele hospital, todas as emissoras faziam plantão, afinal, Gabriel além de ministro da justiça era ainda amigo pessoal do imperador. Todos sabiam que ele não demoraria a aparecer. A nota oficial dizia que fora um assalto realizado por homens encapuzados que falavam um dialeto Ajuá (havia um clima de xenofobia para com os poucos que migraram para Acaz). A nota ainda dizia que o valente comandante tentou convencer os jovens a soltarem as armas porque assim teriam um futuro melhor, mas que ambos teriam atirado e o ministro da justiça então teria sacou sua arma e reagiu sendo ferido em meio ao tiroteio. Mesmo assim ele ainda dirigiu seu próprio carro ao hospital tentando salvar um velho amigo de seu pai que infelizmente faleceu no caminho. A nota terminou citando o repúdio do ministro da justiça ao ato covarde e a determinação em encontrar os culpados que faria com que ele mesmo se responsabilizasse pelas investigações.
O imperador chegou ao hospital em uma comitiva que incluía 12 veículos oficiais idênticos para que ninguém soubesse onde estava o soberano do reino. Os repórteres se aglomeraram ao entorno do cerco da polícia montada tentando uma foto por mais breve que fosse daquele rapaz que aparecia tão pouco em público.
- Sem acenos. - Disse o chefe da segurança.

Ele saiu caminhando rápido de cabeça baixa, cercado por homens de terno preto. O abrir das portas automáticas e a entrada daqueles mais de 50 seguranças analisando cada pedaço do espaço, mudava a rotina daquele hospital. Os médicos e enfermeiros se aglomeraram para ver alguém que poucos teriam oportunidade de ver pessoalmente. Era um jovem bonito, de uns 22 anos, seu rosto transmitia ternura a quem o assistia, mas era notória a tristeza que consumia a alma daquele pobre rapaz. O dono do hospital se apressou solicito a mostrar o caminho até o quarto de Gabriel, ninguém nunca havia visto ele por lá, a não ser para buscar os balanços financeiros e cobrar melhores resultados. Estava ocupadíssimo com duas beldades na piscina de sua mansão num dos bairros mais nobres de Uranak, quando recebeu uma ligação do gerente avisando do ilustre hóspede que chegara. Sabia que dinheiro não era problema e esperava obter alguma publicidade com tão conhecidos membros da corte. Quem sabe uma proximidade com o imperador não poderia lhe trazer grandes vantagens?
- Este é o quarto, recomendo cuidado, ele ainda não esta apto a se emocionar.
- Como ele esta?
- Recebeu dois tiros que felizmente não deixarão grandes sequelas e também perdeu bastante sangue, mas irá sobreviver. Precisará de fisioterapia e talvez perca um pouco da força do braço direito, mas como militar que é, com alguns exercícios terá uma rápida recuperação.
- Muito obrigado
- Eu que agradeço a honra de ter o imperador visitando meu hospital.
- Você há de convir que a ocasião não seja das melhores e que eu preferiria não ter de pisar em um hospital.
- Sim, mas ...
- Por favor, o Sr já respondeu a pergunta do imperador, aguarde ser solicitado. - Disse o chefe da segurança percebendo que a insistência daquele homem incomodava ao soberano.
- Que susto você nos deu Gabriel, és meu amigo, não podes maltratar assim meu coração.
- Quase morri, mas ao menos aqueles assaltantes tiveram uma lição.
- Ordenarei aos meus melhores detetives que descubram o paradeiro destes que acham que podem atentar contra o império.
- Não!
- Por que não?
- Permita que eu mesmo tome conta desta investigação, não quero ninguém mais envolvido. Lauro era amigo pessoal de meu pai e eu preciso ser o responsável pela captura destes dois para me sentir vingado.
- Se é assim que você deseja, que seja desta maneira, mas melhore logo pois o rastro de um crime some com o tempo.
- Não se preocupe, não vai se livrar de mim tão fácil. Em alguns dias já estarei de volta à ativa sendo presença constante naquele palácio.
- Bom, sabes que não posso ficar, pois a minha presença já tumultuou o suficientemente este hospital. Descanse, se precisar de qualquer coisa deixarei dois homens de confiança responsáveis pelos teus cuidados.
- Obrigado imperador, fico lisonjeado pelo teu cuidado.
- Faço isto por um amigo, não por um ministro.
Ao sair o imperador encarregou dois homens de sua guarda pessoal de permanecerem no hospital cuidando e fornecendo tudo que Gabriel precisasse. Sentou-se ao banco de seu automóvel juntamente com seu principal conselheiro, Acbar, e fez uma solicitação extremamente sigilosa a ele. Conversaram ainda sobre os fatos que afetavam o império e o imperador lhe deu cópias do planejamento de Gabriel e de Robert para solução do problema.
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A manhã estava tranquila, Robert acordou primeiro e preparou o café. Sophia adorava assisti-lo na cozinha e ficou ali parada na porta observando aquilo que para ele era quase uma alquimia, ele se assustou ao vê-la, ela apenas sorriu e lhe deu um beijo, então se sentou a mesa sentindo que logo a felicidade de o ver tão perto seria substituída pela saudade de sua ausência.
- Quer café?
- Bem pouco, uns três dedos.
- Se tivesse que escolher entre a vida em Abiatar e a vida em Acaz, que vida escolheria?
- Que pergunta Robert, por que quer saber?
- Só quero saber onde você é mais feliz.
- A vida em Abiatar é muito melhor, só de ver todos os dias as montanhas e o campo de Lísias já paga a nossa mudança.
- Imagino. E o povo?
- Conheço poucos, mas os poucos que conheci são muito mais altruístas que em Acaz. Você sabia que aqui de tempos em tempos cada um deles da um voto dizendo qual cidadão é mais apropriado a governar o povo?
- Não, isto é possível? O rei não se incomoda?
- Eles nem tem um, na verdade este que a maioria escolhe é uma espécie de rei que permanece até que o próximo seja escolhido fazendo com que mudem constantemente  o governo.
- Não pensei que algo assim fosse possível.
- Parece que só em Jibaoçú é diferente, eles simplesmente não tem um governo, são várias tribos que interagem entre si e tem seu território respeitado pelos nativos de Etê e de Ajuá. Também pudera, os nativos daqui dizem que o exército de Jibaoçú nunca perdeu sequer uma batalha, mais do que isto, ninguém nunca os viu, e os sobreviventes não se lembram da batalha, só os Etê já os viram.
- Como ficou sabendo de tudo isto?
- Enquanto você viajava eu levei as crianças à escola. Como não tinha nada para fazer conversei com algumas mães de alunos e professores que quando souberam que eu vinha de Uranak começaram logo a me contar sobre esta terra e quanto mais me contavam, mais eu queria saber. A história deles é riquíssima, nem sempre foram pacíficos, mas quando os Etê se aliaram aos Jibaoçú as 15 nações que compunham o globo começaram a se unir. Os Etê praticamente não alteraram seu território, mas deixaram de ter um exército e os Jibaoçú invadiam qualquer nação que declarasse guerra à outra. Foi assim que seu território passou a ser do tamanho que é. Já os Ajuás são na verdade a união das quatro maiores nações fora do território Etê e Jibaoçú.
- É, você também é cultura. Hahaha
Robert parou de rir e mudou o semblante na hora em que observou seu jornal.
- Que foi?
- Gabriel, esta hospitalizado. Parece que foi atacado por um assaltante nativo de Ajuá.
- Não, não é a cultura deles, de Ajuá ele não é, deve haver algum engano.
- É, mas não é a hora de isto acontecer.
- Por que Robert? Você esta estranho.
- Preciso ir à cidade hoje, mas volto antes de escurecer.
- Tudo bem. E se te procurarem lá de Acaz?
- Anote quem foi e diga que retorno quando chegar.
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- IACNTA bom dia, em que posso ajudar?
- Preciso falar com Hamir.
- Não acredito que Dr. Hamir possa atendê-lo.
- Sonia, por favor, diga que é urgente, Dr. Robert.
- Oh, desculpe, não sabia que era o senhor um instante.

- Olá Robert, suponho que já saiba de Gabriel.
- Sim, aliás, quem é que não sabe?
- Isto complica mais ainda a situação e o imperador fará um discurso hoje diante do congresso.
- Acha que vai anunciar a decisão?
- Sim, até porque pelas leis atuais não pode liberar recursos sem a autorização deles.
- Mas se ele não disser o motivo eles não vão autorizar a liberação em nenhum dos dois casos.
- Isto é que é estranho, pois os oito representantes das nações de Abiatar estarão presentes.
- Eu sei o que ele vai fazer.
- E o que é?
- Vai tomar o poder para si, para não ter que explicar os atos do governo.
- E isto é bom?
- Não, o imperador ficará cada vez mais sozinho e mesmo necessária, esta medida é impopular. Ele precisará do apoio incondicional do exército e da fidelidade de Gabriel que por sua vez se tornará cada vez mais poderoso. Preciso que venha a Abiatar, mas preciso que mantenha alguém ai, dentro da IACNTA para nos manter informados.
- Mas o IACNTA é apenas uma instituição de desenvolvimento de tecnologias.
- Acredite, se o exército tiver um plano para invadir Abiatar com certeza o IACNTA será o primeiro a saber.
- Por quê?
- Porque é daí que sai toda tecnologia deste planeta, inclusive armamentos.
- E o que quer que eu faça ai.
- Quando você chegar eu te conto e caso o imperador nos chame estamos a algumas horas de viagem.
- Tudo bem, arrumo tudo hoje e amanhã estarei ai.
- Enviei um e-mail, acha que pode fazer isto?
- Você só pode estar brincando.
- Não, preciso que você faça e tem que ser hoje porque não teremos outra oportunidade.
- Não garanto nada, sou um cientista, não um agente secreto.
- Nestes tempos a gente precisa se tornar de tudo um pouco.
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Gabriel chegou ao palácio apoiado por uma muleta atendendo a ordens do imperador.
- Que bom vê-lo reestabelecido. Soube algo do paradeiro dos assaltantes?
- Não ainda, mas estamos investigando.
- Bom, não foi por isto que solicitei sua presença. Preciso que você encontre um substituto para Lauro o mais rápido possível.
- Sim majestade, mas posso perguntar o motivo da urgência?
- Tenho um discurso a fazer hoje e precisarei de todo apoio do exército. Temo que a imprensa não compreenda nossas razões e podem surgir revoltas que não podem subverter a ordem. Leve esta autorização do meu gabinete e escolha alguém de extrema confiança, serão tempos muito difíceis em que não poderemos nos dar ao luxo de qualquer tipo de atrito interno.
- Sim
- Gabriel
- Sim?
- Sei que sua história foi difícil, mas sei que nossa amizade é verdadeira. Quando te escolhi para este cargo foi porque sabia que podia confiar em você, mas foi também porque acima da amizade que tenho eu sei da sua competência. Precisarei muito de sua lealdade!
- Tenha certeza de que Acaz não poderia estar em melhores mãos.
- Vá, escolha o substituto e distribua as tropas pela cidade em pontos estratégicos. Você tem 4 horas.
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Já havia dois meses que o imperador, antes presença constante,  não se apresentava ao congresso. Todos sabiam que algo havia de errado no reino. O imperador chegou pontualmente as 20:00 hs, não era horário de sessão, mas nenhum parlamentar ousaria desrespeitar uma convocação do imperador. 

O jovem soberano subiu ao palanque e pela primeira vez hesitou a iniciar seu discurso:
- Boa noite a todos, representantes das províncias deste império tão vasto e consolidado como única e verdadeira força neste planeta. Como todos aqui sabem, há 300 anos quando ainda éramos apenas um dos reinos deste mundo conquistamos os céus e antes de qualquer outro pousamos e conhecemos os habitantes de Abiatar. Nossos cientistas sempre determinados nos levaram a um domínio total deste planeta conquistado durante o longo reinado de meu pai que também foi o tempo de maior prosperidade deste reino. Se há algo que aprendi com ele foi que quando a situação exige medidas extremas precisam ser tomadas. Não posso elucidar os motivos que me levaram a tomar a decisão que vim aqui anunciar, mas sei que assim como os senhores tinham uma confiança cega em meu pai, também em nome dele deram seus votos de se submeter ao que este governo determina e com o tempo puderam perceber que as medidas que tomamos têm sido acertadas. Alguns acreditam que me distancio mais do povo do que meu pai os habituou porem as pressões e decisões de um governo vão muito além das coisas que ele pode se permitir transparecer. Acredito no poder do povo e na humildade que permita ao soberano tomar as medidas que cada uma das regiões do nosso vasto império necessita. E é por motivos alheios a minha vontade que tomo uma medida para proteger a continuidade e a soberania de tão poderoso império. Ativo neste momento o mecanismo contido na clausula 23 da constituição de Acaz que me permite como imperador suspender os poderes e as atividades do congresso por tempo indeterminado. Peço aos senhores que não se preocupem, pois o governo permanecerá pagando seus salários durante este período e meus conselheiros estarão abertos aos projetos que os senhores necessitem. No tempo certo tudo será esclarecido e o funcionamento desta casa restituído, assim que a ameaça que hoje nos cerca esteja solucionada. Obrigado pela atenção e dedicação de todos aqui.
O imperador se retirou apressado e o congresso se encheu do som das conversas dos parlamentares perplexos com o que haviam acabado de ouvir. A cláusula 23 existia desde a nova constituição que criou o congresso há 957 anos e nunca havia sido utilizada, nem mesmo em tempos de guerra. Não se falava em outra coisa em todos os jornais e em alguns locais surgiram revoltas isoladas rapidamente reprimidas pelo exercito de Acaz.
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- Acbar preciso como nunca de seus sábios conselhos. Teremos uma grande batalha pela frente até estarmos seguros.
- Se o senhor me permite dizer acredito que suas decisões têm sido mais sábias que meus conselhos.
- Mas ainda sou jovem e inexperiente e enfrento um desafio que nenhum outro soberano já enfrentou.
- Acredite quando digo que todos eles já enfrentaram alguma dificuldade que nunca fora enfrentada e isto os tornou mais fortes.
- Espero que esteja certo. E o favor que lhe pedi?
- Coletei algumas informações e amanhã irei pessoalmente a Trench entrevistar um rapaz que é vigia noturno em Ichvill.
- Que bom que posso contar com você. Mantenha-me informado.

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