terça-feira, 22 de maio de 2012

Rota de Colisão - Capitulo 4


Eram 8:00 h quando Hamir desembarcou em Abiatar. Apesar de ser descendente de Ajuás nunca estivera antes naquele planeta. Robert o esperava, feliz em ver o amigo e  ansioso por mostrar-lhe a beleza daquelas terras. Hamir parecia preocupado, centrado em seus pensamentos não foi de muitas palavras no caminho. Sophia lhes preparou um banquete com todas as delícias que a propriedade rural poderia lhes fornecer. Hamir ficou impressionado com o gosto e a cor dos alimentos, nunca havia provado nada parecido. Descansaram o almoço tomando um café na varanda e Robert pode perceber que o amigo estava mais aliviado das tensões que carregava.
- É um lugar maravilhoso, não acha?
- Nunca vi nada parecido, agora entendo porque você se mudou pra cá.
- Impressionante a cultura e a diferença de dois planetas tão próximos.
- Verdade.
- Foi naquela planície que Karabu morreu há 40 anos. Chama-se “Campo de Lísias” em homenagem ao general que o derrotou.
- Acha que pode acontecer de novo.
- Eu diria que esta tudo em nossas mãos.
- Por que acha isto?
- Porque homens se desesperam e cedo ou tarde o imperador ficará sem opção e terá que optar pela única coisa concreta que tem em suas mãos.
- Mas não acha que ele vá negociar?
- Ele não irá considerar esta hipótese. Gabriel já o fez acreditar que não é possível.
- E qual é o seu plano?
- Evitar a guerra ou equilibrar as forças.
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As coisas se complicavam em Acaz, as revoltas explodiam em todos os lugares. Embora na prática o congresso servisse apenas para avisar ao imperador sobre as necessidades do povo, o povo se sentia representado por ele e todos se sentiram afrontados com a medida do imperador. A polícia não conseguia conter os protestos e passou a enfrentar uma onda de deserção em massa, cada vez mais o exercito ocupava as ruas em todas as regiões. Em meio a tanta confusão noticias de abuso de poder e assassinatos frios por parte dos militares ocupavam todos os jornais. O palácio contava agora com o cuidado de 1500 homens preocupados com a segurança da corte. Era difícil imaginar que as coisas tinham chego a este nível em apenas uma semana.
Os conselheiros foram chamados a uma reunião de emergência, era necessário traçar os rumos do governo o mais rápido possível.
- Onde esta Acbar?
- Não conseguimos contato com ele em nenhum dos telefones.
O imperador chamou o chefe da sua guarda pessoal e disse a ele algumas palavras. O homem saiu apressadamente e o imperador continuou a reunião. No entanto decidiu não falar sobre as decisões concernentes aos planos para salvar os planetas da colisão.
Terminada a reunião ficou decidido que estavam proibidas manifestações e aglomerações e que qualquer cidadão poderia ser preso para averiguação mesmo sem uma acusação formal. A imprensa estava obrigada a enviar previamente ao governo todas as noticias e informações para análise prévia e o governo reservava a si o direito de autorizar ou não a veiculação do material. Também foi determinado um alistamento militar imediato e obrigatório a todos os homens de 16 a 25 anos que não estivessem em empregos formais e a construção de 150 novos quartéis dentro do prazo de três meses. Todo trabalhador da construção civil estava imediatamente obrigado a deixar seus afazeres  e trabalhar para o governo se assim solicitado para viabilizar a construção dos novos quartéis. O imperador também agendou viagem oficial a Lísias, capital Ajuá, para negociar a instalação de três bases militares de pesquisas no país sob o pretexto de realizar observações externas de Acaz e pesquisa de plantas medicinais de Abiatar. Quanto ao próximo passo, o imperador marcou uma reunião para três meses após aquela data para que os conselheiros tivessem todo o tempo necessário para analisar as duas propostas de salvação dos reinos.
- Senhores, lembrem-se que as informações desta sala são sigilosas e qualquer informação se divulgada ameaça à integridade do império.
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Robert e Hamir construíram um laboratório na fazenda e Hamir já se sentia completamente integrado aquele novo mundo. As pesquisas não avançavam muito e as notícias de Acaz eram cada dia piores, no entanto Robert parecia cada dia mais animado com o desenho de uma máquina que Hamir não entendia bem.
- Isto vai nos ajudar?
- Quem sabe? Só acho que ter esta máquina pronta pode ser muito útil.
- E o que ela faz?
- Espero que você nunca precise saber.
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Miguel e Gabriel estavam a cada dia mais ocupados, a todo o momento surgia um novo atentado e por onde passavam os militares eram hostilizados. As revoltas surgiam em lugares inesperados e o contingente do exército já se sentia sobrecarregado. As novas ordens do governo geraram deserções até mesmo entre os militares, a perda do controle era questão de tempo se medidas enérgicas não fossem tomadas. Ainda discutiam as melhores posições para os soldados quando o telefone tocou com ordens do imperador para que Gabriel fosse imediatamente ao palácio.
O ministro subiu apressado as escadas que davam acesso à entrada principal, outrora ponto turístico agora haviam muitos homens posicionados para garantir a tranquilidade do imperador. Foi indicado a ir diretamente ao jardim de inverno do soberano e o encontrou sentado observando calado um cedro que seu pai plantara na época da unificação. Gabriel sentou-se ao lado dele percebendo a inquietação do amigo.
- Mandou me chamar?
- Sim, as coisas estão ficando ruins lá fora.
- Mas temos contingente e as pessoas logo se acostumarão, as medidas eram necessárias.
- Gabriel, eu hoje perdi um grande amigo, alguém que foi pra mim tão ou mais importante que meu pai, foi um tutor que ajudou a me preparar para a difícil tarefa de ser soberano neste império.
- Do que você esta falando?
- Acbar está morto, foi assassinado em casa. Coloquei três dos meus melhores detetives na investigação deste caso e preciso de todos os homens que você puder desprender para desvendar este crime bárbaro. Não posso deixar o homem que matou meu melhor conselheiro livre.
- Sim, assim o farei.
- Também preciso que você prepare a segurança, pois mesmo em tempos de instabilidade como estes eu não deixarei de ir ao enterro de Acbar.
- Recomendo que não vá, será difícil garantir sua segurança.
- Não deixarei de ir e não estou pedindo seu conselho, estou lhe dando uma ordem. Prepare minha segurança e descubra quem o matou.
- Imediatamente senhor.
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As crianças corriam e gritavam pela casa enquanto Robert e Hamir conversavam à mesa, Sophia pedia que parassem de correr, mas era em vão.
- Crianças, vendo-as assim me da saudade da época em que eu não tinha preocupações.
- E nos faz esquecer as pressões da época em que vivemos.
- Que pressões Robert? – Interrompeu Sophia.
- O prazo esta curto demais para conclusão do experimento.
- É, e não chegamos nem na metade. – Complementou Hamir.
- Vocês estão me escondendo alguma coisa. Bom, vamos jantar então já que não vão me dizer o que é.
Robert nem prestou atenção às palavras de Sophia, pois enquanto ela falava a televisão anunciava a morte de Acbar, um dois mais importantes conselheiros do império nos últimos 50 anos. As imagens da comoção popular e a declaração oficial do porta-voz do governo tomaram conta de toda edição do jornal. Todos olhavam estáticos para a televisão, era inacreditável a perda de um homem tão importante à coroa. Robert começava a imaginar que não era coincidência duas mortes em tempo tão curto de pessoas tão ligadas ao imperador. Gabriel estava fechando o cerco e agora estava mais poderoso do que nunca, era hora de se preparar para o pior, mas Robert não se prepararia para enfrentar as consequências do pior, ele se prepararia para evitar o pior.
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Chovia muito as 15:00 hs quando a gigantesca fila de veículos pretos adentrou o cemitério, populares e ilustres lotavam o lugar. O imperador estava acompanhado de mais de 50 homens da guarda imperial e o exército vigiava cada centímetro daquele cemitério que abrigava cada um dos grandes homens que passaram por Acaz. Acbar seria enterrado ao lado de Felipe II, o imperador a quem serviu por tantos anos no mausoléu reservado apenas a família imperial. O jovem imperador não pode conter as lágrimas com a perda de um amigo a quem tinha como a um pai. Junto com Acbar padecia o restante do império de Felipe II e seu estilo de governar, iam também os anos mais prósperos do império Acaz e todas as suas realizações e com tudo isto, o pouco de prestígio que ainda sobrava ao governo. Alguns jornais noticiavam que Acbar fora assassinado por não concordar com as medidas tomadas pelo governo e se recusar a compactuar com os planos de dominação e tirania advindos da mente de um jovem com sede de grandeza que nada tinha que pudesse ser comparado ao pai. Quando o tumulo foi fechado, o imperador percebeu que era apenas um jovem com a responsabilidade sobre milhões de vidas, percebeu que estava sozinho no momento em que mais precisava de alguém que o pudesse aconselhar. Deixou o mausoléu se sentindo inseguro e enquanto caminhava em direção ao seu veículo era hostilizado pelo povo que tanta vezes aplaudira seu pai, alguns atiravam objetos, outros gritavam palavras de ordem.
Do meio da multidão ouviu-se o barulho de um disparo, todos demoraram a perceber que o imperador estava caído, os seguranças carregaram-no até o veiculo que saiu em disparada em direção ao hospital. A guarda imperial e o exército não encontraram o atirador e as horas que se seguiram foram de muita insegurança e especulação.

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