Já
passava das 21:30, horário habitual em que Robert punha as crianças para
dormir, hoje elas estavam mais agitadas que o normal, também pudera, fazia
tempo que ele não tirava um dia de folga para brincar com elas. Apesar da rotina,
Robert não tinha do que reclamar, tinha deixado o agito de Acaz indo para
aquela bela propriedade rural em Abiatar que lhe permitia um contato maior com
as crianças e o prazer de coloca-las para dormir todos os dias. Era quase
madrugada quando pode finalmente abraçar Sophia que o aguardava debruçada no
parapeito da sacada que tinha vista para a lavoura, com as famosas montanhas do
campo de Lísias ao fundo da paisagem.
-
Você demorou.
- As
crianças demoraram a pegar no sono.
- É
tão diferente aqui, este ar faz muito bem.
-
Realmente, não havia tantas estrelas em Acaz.
A
noite era agradável, há muito desejava ter deixado o trabalho no “Instituto de
analise e criação de novas tecnologias de Acaz” que lhe roubava todo tempo
disponível. Era um importante cientista com um talento reconhecido muito além
das fronteiras de Acaz, porém não gostava de criar sempre, se dedicava a outros
robbies como o cultivo de plantas e o conserto de automóveis. A oportunidade de
trabalhar na terra foi fator decisivo em sua decisão de vender tudo que tinha e
mudar-se para a tranquila cidade de Tabaréu. As terras ali eram baratas e a
propriedade com várias plantações custou metade do preço da casa simples em
Uranak capital do império Acaz. Usavam a mesma moeda desde que pela primeira
vez o povo de Acaz por ali havia atracado. Não demorou muito a perceberem que
tinham mais a ganhar aliados que disputando aquelas terras.
O
povo de Abiatar tinha tecnologia muito inferior, mas sabia muito bem defender
sua soberania e a diplomacia foi questão de pura necessidade, por sua vez, Acaz
tinha escassez de produtos essenciais que eram produzidos em abundancia neste
novo mundo. A tecnologia mudou muito a vida dos habitantes de Abiatar, mas o
preço era alto e uma terra riquíssima e essencialmente rural passou a ter
problemas para alimentar seus habitantes. Levou tempo até que as negociações
solucionassem os muitos problemas que existiam, mas após três séculos as
relações eram muito estreitas e ambos os povos estavam interligados entre si.
Robert
podia ver dali à silhueta de Acaz, todas aquelas cidades tão cheias de gente e
fumaça faziam-na ter luz própria à noite e debruçado sobre aquele parapeito
imaginava que ha poucas semanas estava do outro lado observando uma terra tão
bela que escondia suas belezas a quem a observava a noite. Imerso em seus
pensamentos demorou a perceber que uma estrela crescia a sua frente, ele pode vê-la
se aproximar e rasgar os céus a uma velocidade impressionante, o chão tremeu e
alguns pedaços de gesso que decorava o ambiente vieram ao chão. Era um objeto
enorme, bem maior que Acaz, as crianças corriam desesperadas e Sophia foi
atendê-las. Robert sabia que estavam ilesos, sabia que haviam escapado por
muito pouco, mas ainda não havia entendido tudo o que tinha para entender.
Enquanto
fazia as crianças dormirem, Sophia percebeu Robert falando rápido e tenso ao
telefone, ele procurou ficar na varanda para que ela não escutasse. Quando ela
finalmente saiu escutou um Robert ríspido e agitado:
-
Como, como não previmos isto? Equipamentos tão modernos tantos telescópios,
para que? Para que ninguém perceba um objeto deste tamanho passando tão perto?
Quero todas as informações que puderem coletar e amanhã chego ai.
Ele
se virou e viu que ela escutava, não soube ao certo há quanto tempo ela estava
ali.
-
Robert, o que aconteceu?
-
Ainda não sei, vamos ter que investigar.
-
Pode acontecer de novo?
-
Sempre estamos suscetíveis a isto, mas o mais importante é saber se algo foi
afetado.
-
Como assim?
-
Passou perto demais, pode ter causado algum efeito. Pego o primeiro voo para
Acaz amanhã mesmo.
- Mas
você disse que não trabalharia mais com isto, disse que ficaríamos aqui.
-
Sim, mas neste caso, eu sou necessário.
--
Não
pensou em voltar aquele lugar tão cedo, aquele não era seu mundo apesar de ter
nascido nele. O aeroporto lembrava as viagens de criança e a despedida dos
amigos. Havia um carro oficial a sua espera como em todas as suas viagens de
trabalho, trabalho que ele não queria mais. Hamir já estava no laboratório, era
um astrônomo e amigo de longa data, um jovem brilhante, que assim como ele
doava todo seu tempo às pesquisas e ao IACNTA. Se alguém podia dizer a Robert
tudo que ele precisava saber este alguém era Hamir. Foram dois dias de análise
de todos os dados e Robert permanecia atento a tudo. Quando Hamir se ausentou
por algumas horas Robert sabia que ele havia chego a alguma conclusão. O jovem
convocou uma reunião de urgência com o Imperador e seus ministros além dos
principais cientistas da IACNTA. O clima era tenso, o cientista não
gostava de falar em público, mas ninguém conseguiria explicar aquilo, então,
diante daquela plateia formada pelos homens mais importantes de sua época o
rapaz começou seu discurso:
-
Como todos sabem um objeto do espaço passou a poucos quilômetros de Abiatar.
Não sentimos os efeitos e tremores em Acaz, apesar de termos visto o objeto,
porque felizmente fomos protegidos pela orbita de Abiatar. O asteroide passou a
245.417 km de Abiatar e tinha um diâmetro de 863 km aproximadamente. Como todos
aqui nesta sala sabem, Acaz orbita em torno de Abiatar a 420.677 km de
distância.
O
imperador o interrompeu:
-
Tudo isto são dados técnicos que não nos interessam, poupe-nos disto, o que
queremos saber é se o evento causou ou não algum efeito sobre o nosso planeta.
-
Não.
-
Então não temos porque prolongar esta reunião.
-
Temos sim, esta é uma discussão que ainda teremos por mais três anos e meio.
-
Explique-se.
-
Acaz não foi afetada, mas o objeto alterou a orbita de Abiatar e sua nova rota
é esta.
O
imperador empalideceu quando viu o gráfico preparado por Hamir. Robert
acompanhava os trabalhos, mas não tinha visto quando aquilo fora preparado. As
discussões tomaram conta da sala, perplexos, desesperados, tensos, um misto
entre acreditar que aquilo era real ou acreditar que Hamir havia se enganado.
- Temos
quanto tempo?
- Não
temos tempo imperador, os planetas vão se aproximar gradualmente até colidirem,
podemos tentar algo dentro dos próximos três anos e meio e após isto a
proximidade será grande demais para qualquer ação. Fato é que se não fizermos
nada ambos os planetas deixarão de existir entre um a oito meses após o prazo
limite.
-
Quais as nossas opções?
- Não
temos tecnologia ainda que possa nos salvar!
- Então
crie, terão o suporte que precisarem.
- Não
é tão simples.
- Com
todo respeito Imperador, acredito que o Sr Hamir esteja um pouco equivocado
quanto a nossa tecnologia. - Interrompeu o ministro da defesa.
-
Prossiga ministro.
-
Temos bombas capazes de explodir um dos planetas.
De
imediato o silêncio tomou conta da sala, o imperador emudeceu e o ministro o
observava receoso esperando resposta. Ninguém se atreveria a falar antes do
imperador.
- E o
que faríamos com as pessoas?
-
Podemos evacuar o planeta se o Sr decidir salvá-los, porém devo alertá-lo que
nosso planeta já tem um grande inchaço populacional e que apesar de nossos
avanços tecnológicos não temos como produzir comida o suficiente.
-
Qual a sua sugestão ministro?
-
Podemos tomar Abiatar. O planeta é muito maior e menos populoso, poderíamos
utilizar nossas armas mais modernas e a invasão seria rápida ainda a tempo de
transferir nosso povo e nossas indústrias, sei que temos uma convivência
pacífica, mas nossas opções agora se limitam a destruí-los ou invadi-los, caso
contrário nos tornaríamos refugiados nas terras deles e nosso império deixaria
de existir.
Robert
Sabia que tinha de ser cauteloso com as palavras, mas o ministro da defesa
estava sendo extremamente frio em seu discurso:
-
Imperador. Não acredito que seja necessária a invasão. O povo daquele planeta é
civilizado e negociações nos permitiriam delimitar nossas terras e as deles lá,
tendo em vista que a tecnologia de destruição é nossa. Uma guerra poderia se
alastrar por anos e ultrapassar nosso prazo limite, além disto, podemos estudar
maneiras de reverter esta alteração na órbita. É de lá que vem a nossa comida,
se a guerra se alastrar por só um pouco mais de tempo que o calculado, muitos
morrerão de fome. Com diplomacia, a indústria teria mais tempo para se instalar
lá e as pessoas para criar a infraestrutura necessária.
As
palavras de Robert enfureceram o ministro:
-
Imperador eu discordo, se eles souberem do que esta acontecendo vão se preparar
para a guerra e vão endurecer as negociações. Se o Sr deseja manter a soberania
do nosso império não podemos permitir que eles saibam o que realmente esta
acontecendo.
- Mas
eles não teriam como destruir nosso planeta sem nós Gabriel.
Robert
respondeu com ódio olhando diretamente nos olhos daquele ministro.
- Já
transferimos muita tecnologia para eles, ninguém pode garantir que não, até
porque muitos cientistas como o próprio Robert aqui na sala já passaram
temporadas por lá e sabe-se lá o que não criaram. Precisamos ser enérgicos
e discretos, além disto, Sr. Robert, eu sou ministro da defesa e tenho
meus privilégios, não me faça esquecer o bem que o Sr já nos fez.
-
Entendo seu ponto de vista ministro e também entendo o ponto de vista de
Robert. - O imperador interrompeu com ares de apaziguador - Vocês tem uma
semana para me dizer exatamente o que precisam, eu verei nossas opções junto a
meus conselheiros pessoais dando o meu veredito. O plano de cada um de vocês em
uma semana.
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