terça-feira, 22 de maio de 2012

Rota de Colisão - Capitulo 1


Já passava das 21:30, horário habitual em que Robert punha as crianças para dormir, hoje elas estavam mais agitadas que o normal, também pudera, fazia tempo que ele não tirava um dia de folga para brincar com elas. Apesar da rotina, Robert não tinha do que reclamar, tinha deixado o agito de Acaz indo para aquela bela propriedade rural em Abiatar que lhe permitia um contato maior com as crianças e o prazer de coloca-las para dormir todos os dias. Era quase madrugada quando pode finalmente abraçar Sophia que o aguardava debruçada no parapeito da sacada que tinha vista para a lavoura, com as famosas montanhas do campo de Lísias ao fundo da paisagem.

- Você demorou.
- As crianças demoraram a pegar no sono.
- É tão diferente aqui, este ar faz muito bem.
- Realmente, não havia tantas estrelas em Acaz.

A noite era agradável, há muito desejava ter deixado o trabalho no “Instituto de analise e criação de novas tecnologias de Acaz” que lhe roubava todo tempo disponível. Era um importante cientista com um talento reconhecido muito além das fronteiras de Acaz, porém não gostava de criar sempre, se dedicava a outros robbies como o cultivo de plantas e o conserto de automóveis. A oportunidade de trabalhar na terra foi fator decisivo em sua decisão de vender tudo que tinha e mudar-se para a tranquila cidade de Tabaréu. As terras ali eram baratas e a propriedade com várias plantações custou metade do preço da casa simples em Uranak capital do império Acaz. Usavam a mesma moeda desde que pela primeira vez o povo de Acaz por ali havia atracado. Não demorou muito a perceberem que tinham mais a ganhar aliados que disputando aquelas terras.
O povo de Abiatar tinha tecnologia muito inferior, mas sabia muito bem defender sua soberania e a diplomacia foi questão de pura necessidade, por sua vez, Acaz tinha escassez de produtos essenciais que eram produzidos em abundancia neste novo mundo. A tecnologia mudou muito a vida dos habitantes de Abiatar, mas o preço era alto e uma terra riquíssima e essencialmente rural passou a ter problemas para alimentar seus habitantes. Levou tempo até que as negociações solucionassem os muitos problemas que existiam, mas após três séculos as relações eram muito estreitas e ambos os povos estavam interligados entre si.
Robert podia ver dali à silhueta de Acaz, todas aquelas cidades tão cheias de gente e fumaça faziam-na ter luz própria à noite e debruçado sobre aquele parapeito imaginava que ha poucas semanas estava do outro lado observando uma terra tão bela que escondia suas belezas a quem a observava a noite. Imerso em seus pensamentos demorou a perceber que uma estrela crescia a sua frente, ele pode vê-la se aproximar e rasgar os céus a uma velocidade impressionante, o chão tremeu e alguns pedaços de gesso que decorava o ambiente vieram ao chão. Era um objeto enorme, bem maior que Acaz, as crianças corriam desesperadas e Sophia foi atendê-las. Robert sabia que estavam ilesos, sabia que haviam escapado por muito pouco, mas ainda não havia entendido tudo o que tinha para entender.
Enquanto fazia as crianças dormirem, Sophia percebeu Robert falando rápido e tenso ao telefone, ele procurou ficar na varanda para que ela não escutasse. Quando ela finalmente saiu escutou um Robert ríspido e agitado:
- Como, como não previmos isto? Equipamentos tão modernos tantos telescópios, para que? Para que ninguém perceba um objeto deste tamanho passando tão perto? Quero todas as informações que puderem coletar e amanhã chego ai.
Ele se virou e viu que ela escutava, não soube ao certo há quanto tempo ela estava ali.
- Robert, o que aconteceu?
- Ainda não sei, vamos ter que investigar.
- Pode acontecer de novo?
- Sempre estamos suscetíveis a isto, mas o mais importante é saber se algo foi afetado.
- Como assim?
- Passou perto demais, pode ter causado algum efeito. Pego o primeiro voo para Acaz amanhã mesmo.
- Mas você disse que não trabalharia mais com isto, disse que ficaríamos aqui.
- Sim, mas neste caso, eu sou necessário.

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Não pensou em voltar aquele lugar tão cedo, aquele não era seu mundo apesar de ter nascido nele. O aeroporto lembrava as viagens de criança e a despedida dos amigos. Havia um carro oficial a sua espera como em todas as suas viagens de trabalho, trabalho que ele não queria mais. Hamir já estava no laboratório, era um astrônomo e amigo de longa data, um jovem brilhante, que assim como ele doava todo seu tempo às pesquisas e ao IACNTA. Se alguém podia dizer a Robert tudo que ele precisava saber este alguém era Hamir. Foram dois dias de análise de todos os dados e Robert permanecia atento a tudo. Quando Hamir se ausentou por algumas horas Robert sabia que ele havia chego a alguma conclusão. O jovem convocou uma reunião de urgência com o Imperador e seus ministros além dos principais cientistas da IACNTA. O clima era tenso, o cientista não gostava de falar em público, mas ninguém conseguiria explicar aquilo, então, diante daquela plateia formada pelos homens mais importantes de sua época o rapaz começou seu discurso:

- Como todos sabem um objeto do espaço passou a poucos quilômetros de Abiatar. Não sentimos os efeitos e tremores em Acaz, apesar de termos visto o objeto, porque felizmente fomos protegidos pela orbita de Abiatar. O asteroide passou a 245.417 km de Abiatar e tinha um diâmetro de 863 km aproximadamente. Como todos aqui nesta sala sabem, Acaz orbita em torno de Abiatar a 420.677 km de distância.
O imperador o interrompeu:
- Tudo isto são dados técnicos que não nos interessam, poupe-nos disto, o que queremos saber é se o evento causou ou não algum efeito sobre o nosso planeta.
- Não.
- Então não temos porque prolongar esta reunião.
- Temos sim, esta é uma discussão que ainda teremos por mais três anos e meio.
- Explique-se.
- Acaz não foi afetada, mas o objeto alterou a orbita de Abiatar e sua nova rota é esta.

O imperador empalideceu quando viu o gráfico preparado por Hamir. Robert acompanhava os trabalhos, mas não tinha visto quando aquilo fora preparado. As discussões tomaram conta da sala, perplexos, desesperados, tensos, um misto entre acreditar que aquilo era real ou acreditar que Hamir havia se enganado.
- Temos quanto tempo?
- Não temos tempo imperador, os planetas vão se aproximar gradualmente até colidirem, podemos tentar algo dentro dos próximos três anos e meio e após isto a proximidade será grande demais para qualquer ação. Fato é que se não fizermos nada ambos os planetas deixarão de existir entre um a oito meses após o prazo limite.
- Quais as nossas opções?
- Não temos tecnologia ainda que possa nos salvar!
- Então crie, terão o suporte que precisarem.
- Não é tão simples.
- Com todo respeito Imperador, acredito que o Sr Hamir esteja um pouco equivocado quanto a nossa tecnologia. - Interrompeu o ministro da defesa.
- Prossiga ministro.
- Temos bombas capazes de explodir um dos planetas.
De imediato o silêncio tomou conta da sala, o imperador emudeceu e o ministro o observava receoso esperando resposta. Ninguém se atreveria a falar antes do imperador.
- E o que faríamos com as pessoas?
- Podemos evacuar o planeta se o Sr decidir salvá-los, porém devo alertá-lo que nosso planeta já tem um grande inchaço populacional e que apesar de nossos avanços tecnológicos não temos como produzir comida o suficiente.
- Qual a sua sugestão ministro?
- Podemos tomar Abiatar. O planeta é muito maior e menos populoso, poderíamos utilizar nossas armas mais modernas e a invasão seria rápida ainda a tempo de transferir nosso povo e nossas indústrias, sei que temos uma convivência pacífica, mas nossas opções agora se limitam a destruí-los ou invadi-los, caso contrário nos tornaríamos refugiados nas terras deles e nosso império deixaria de existir.
Robert Sabia que tinha de ser cauteloso com as palavras, mas o ministro da defesa estava sendo extremamente frio em seu discurso:
- Imperador. Não acredito que seja necessária a invasão. O povo daquele planeta é civilizado e negociações nos permitiriam delimitar nossas terras e as deles lá, tendo em vista que a tecnologia de destruição é nossa. Uma guerra poderia se alastrar por anos e ultrapassar nosso prazo limite, além disto, podemos estudar maneiras de reverter esta alteração na órbita. É de lá que vem a nossa comida, se a guerra se alastrar por só um pouco mais de tempo que o calculado, muitos morrerão de fome. Com diplomacia, a indústria teria mais tempo para se instalar lá e as pessoas para criar a infraestrutura necessária.
As palavras de Robert enfureceram o ministro:
- Imperador eu discordo, se eles souberem do que esta acontecendo vão se preparar para a guerra e vão endurecer as negociações. Se o Sr deseja manter a soberania do nosso império não podemos permitir que eles saibam o que realmente esta acontecendo.
- Mas eles não teriam como destruir nosso planeta sem nós Gabriel.
Robert respondeu com ódio olhando diretamente nos olhos daquele ministro.
- Já transferimos muita tecnologia para eles, ninguém pode garantir que não, até porque muitos cientistas como o próprio Robert aqui na sala já passaram temporadas por lá e sabe-se lá o que não criaram. Precisamos ser enérgicos e discretos, além disto, Sr. Robert, eu sou ministro da defesa e tenho meus privilégios, não me faça esquecer o bem que o Sr já nos fez.
- Entendo seu ponto de vista ministro e também entendo o ponto de vista de Robert. - O imperador interrompeu com ares de apaziguador - Vocês tem uma semana para me dizer exatamente o que precisam, eu verei nossas opções junto a meus conselheiros pessoais dando o meu veredito. O plano de cada um de vocês em uma semana.

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