A ciranda
permaneceu por toda madrugada e ninguém dentro daquela tenda dormiu, o silencio
veio juntamente com o sol. Levou muito tempo até que os soldados criassem
coragem de sair da tenda e quando o fizeram puderam perceber tudo que havia
acontecido naquela noite. Nenhum avião, nenhuma tenda que não aquela, nenhum
soldado a não ser os que ficaram ali, aguardando seu destino, nenhuma arma se
não as que eles tinham em punho durante a reunião, tudo havia sumido. Gabriel
se sentou desolado com o ar de derrota nos olhos, observava aquela enormidade
de soldados a quem não poderia alimentar, Miguel pensou em consola-lo mas
desistiu antevendo a fúria que poderia advir do primo.
Um idoso
cruzou o descampado onde outrora havia um enorme acampamento militar, passou em
meio aos soldados e entrou diretamente na porta principal, todos observavam
curiosos e não levantaram armas para ele, afinal, era somente um idoso que
provavelmente desejava um pouco de comida. O senhor sentou-se ao lado de
Gabriel e passou a imitar-lhe as poses sacando risos dos soldados que
observavam aquela cena tão inusitada a uma guerra. Gabriel fitou-lhe com ar de
superioridade, mas com os olhos de um gato que se prepara para atacar uma presa
e disse:
- O que
quer aqui velho?
- Nada, é
que também sinto pena de mim mesmo então pensei em me sentar ao lado de um
igual.
- Como
ousa me comparar a você?
- Hora, eu
também já fui general, comandei exércitos em tempos imemoráveis, fiz uma nação
grande, nunca perdia uma batalha, mas agora, não passo de um velho aqui sentado
ao lado de um fracassado.
- Você não
pode falar desta maneira comigo, sou o soberano de um reino.
- Um trono
que se usurpa sem se certificar de que o proprietário não poderá retoma-lo é um
trono frágil que logo cairá.
Gabriel se
levantou e olhou para um soldado dizendo:
- Mate-o
sim!
O soldado
fingiu que não ouvia e a todos que Gabriel pedia repetiam o mesmo gesto.
- Difícil
quando eles perdem a confiança e se esta a milhares de quilômetros de casa sem
comida e sem ter como voltar, não acha?
- Pois
bem, se eles não fazem faço eu.
Gabriel
deu dois tiros no peito do homem que sem se mexer continuou falando:
- Você não
se acha mimado demais para comandar um império?
- E você
não se acha insolente demais para um velho? O que quer?
- Eu quero
o mesmo que você, me lamentar por ser um fracasso hahahahahaha
- Você só
pode estar querendo morrer.
- Que eu
saiba você acabou de me dar dois tiros a queima roupa, isto faz de você um
idiota. Não sabe nada sobre mim, nem mesmo se posso lhe ajudar, eu lhe disse
somente a verdade e você resolveu me matar por isto. A esta altura eu no seu
lugar me agarraria a qualquer um que conhecesse estas terras, mas você é burro
demais para pensar nisto.
Gabriel
pulou na direção do velho que se esquivou do soco e bateu com o cotovelo na
nuca dele fazendo-o cair de cara no chão.
- Hora
Gabriel, pare de ser uma criança e haja como um homem, você tem quinze mil
soldados aqui dependendo de você e está tentando bater em um velho chato. Se
você não fosse tão burro teria conseguido perceber tudo que estava debaixo de
seus olhos e nunca teria iniciado um ataque tão estúpido e despreparado. Agora
terás que arcar com as consequências dos seus atos, inclusive dos que cometeu
antes desta guerra que sinceramente é um monumento a sua burrice. Nunca se
inicia uma guerra que não se possa ganhar e pra saber se pode ou não ganhar,
você precisa conhecer seu inimigo e para conhecê-lo, precisa estuda-lo. E você,
nem por um momento observou Abiatar, tão certo que estava da própria grandeza.
Agora olhe para você, sem ter para onde ir nem o que fazer, acabado, um
verdadeiro fracasso. Bom, é hora de ir, tenho muito a fazer hoje e quero estar
com tudo pronto pois acredito que a noite será longa.
- Quem é
você?
- Isto
importa? Sei tanto sobre você. E você é tão estúpido que ainda não percebeu. Eu
sou o motivo de você estar aqui, sou a razão desta tua fixação cega em entrar
numa batalha que te fez burro a ponto de não perceber que não podia vencer.
- Não, não
é possível.
- Sim, é
possível, agora se me da licença, sou um velho ocupadíssimo.
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