terça-feira, 22 de maio de 2012

Rota de Colisão - Capitulo 19


A ciranda permaneceu por toda madrugada e ninguém dentro daquela tenda dormiu, o silencio veio juntamente com o sol. Levou muito tempo até que os soldados criassem coragem de sair da tenda e quando o fizeram puderam perceber tudo que havia acontecido naquela noite. Nenhum avião, nenhuma tenda que não aquela, nenhum soldado a não ser os que ficaram ali, aguardando seu destino, nenhuma arma se não as que eles tinham em punho durante a reunião, tudo havia sumido. Gabriel se sentou desolado com o ar de derrota nos olhos, observava aquela enormidade de soldados a quem não poderia alimentar, Miguel pensou em consola-lo mas desistiu antevendo a fúria que poderia advir do primo.
Um idoso cruzou o descampado onde outrora havia um enorme acampamento militar, passou em meio aos soldados e entrou diretamente na porta principal, todos observavam curiosos e não levantaram armas para ele, afinal, era somente um idoso que provavelmente desejava um pouco de comida. O senhor sentou-se ao lado de Gabriel e passou a imitar-lhe as poses sacando risos dos soldados que observavam aquela cena tão inusitada a uma guerra. Gabriel fitou-lhe com ar de superioridade, mas com os olhos de um gato que se prepara para atacar uma presa e disse:
- O que quer aqui velho?
- Nada, é que também sinto pena de mim mesmo então pensei em me sentar ao lado de um igual.
- Como ousa me comparar a você?
- Hora, eu também já fui general, comandei exércitos em tempos imemoráveis, fiz uma nação grande, nunca perdia uma batalha, mas agora, não passo de um velho aqui sentado ao lado de um fracassado.
- Você não pode falar desta maneira comigo, sou o soberano de um reino.
- Um trono que se usurpa sem se certificar de que o proprietário não poderá retoma-lo é um trono frágil que logo cairá.
Gabriel se levantou e olhou para um soldado dizendo:
- Mate-o sim!
O soldado fingiu que não ouvia e a todos que Gabriel pedia repetiam o mesmo gesto.
- Difícil quando eles perdem a confiança e se esta a milhares de quilômetros de casa sem comida e sem ter como voltar, não acha?
- Pois bem, se eles não fazem faço eu.
Gabriel deu dois tiros no peito do homem que sem se mexer continuou falando:
- Você não se acha mimado demais para comandar um império?
- E você não se acha insolente demais para um velho? O que quer?
- Eu quero o mesmo que você, me lamentar por ser um fracasso hahahahahaha
- Você só pode estar querendo morrer.
- Que eu saiba você acabou de me dar dois tiros a queima roupa, isto faz de você um idiota. Não sabe nada sobre mim, nem mesmo se posso lhe ajudar, eu lhe disse somente a verdade e você resolveu me matar por isto. A esta altura eu no seu lugar me agarraria a qualquer um que conhecesse estas terras, mas você é burro demais para pensar nisto.
Gabriel pulou na direção do velho que se esquivou do soco e bateu com o cotovelo na nuca dele fazendo-o cair de cara no chão.
- Hora Gabriel, pare de ser uma criança e haja como um homem, você tem quinze mil soldados aqui dependendo de você e está tentando bater em um velho chato. Se você não fosse tão burro teria conseguido perceber tudo que estava debaixo de seus olhos e nunca teria iniciado um ataque tão estúpido e despreparado. Agora terás que arcar com as consequências dos seus atos, inclusive dos que cometeu antes desta guerra que sinceramente é um monumento a sua burrice. Nunca se inicia uma guerra que não se possa ganhar e pra saber se pode ou não ganhar, você precisa conhecer seu inimigo e para conhecê-lo, precisa estuda-lo. E você, nem por um momento observou Abiatar, tão certo que estava da própria grandeza. Agora olhe para você, sem ter para onde ir nem o que fazer, acabado, um verdadeiro fracasso. Bom, é hora de ir, tenho muito a fazer hoje e quero estar com tudo pronto pois acredito que a noite será longa.
- Quem é você?
- Isto importa? Sei tanto sobre você. E você é tão estúpido que ainda não percebeu. Eu sou o motivo de você estar aqui, sou a razão desta tua fixação cega em entrar numa batalha que te fez burro a ponto de não perceber que não podia vencer.
- Não, não é possível.
- Sim, é possível, agora se me da licença, sou um velho ocupadíssimo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário